Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 11 / Fevereiro 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 15 / Fevereiro / 2026

6° Domingo do Tempo Comum, Ano A

1ª Leitura:  Livro do Eclesiástico (Eclo 15: 16-21)

O Livro de Ben Sirá (chamado, na sua versão grega, “Eclesiástico”) é um livro de caráter sapiencial que, como todos os livros sapienciais, tem por objetivo deixar aos aspirantes a “sábios” indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz. O seu autor terá sido um tal Jesus Ben Sirá, um “sábio” israelita que viveu na primeira metade do séc. II a.C..
A época de Jesus Ben Sirá é uma época conturbada para o Povo de Deus. Quando Alexandre da Macedônia morreu, em 323 a.C., o seu império foi dividido por duas famílias: os Ptolomeus e os Selêucidas. Inicialmente, a Palestina ficou nas mãos dos Ptolomeus; e, nos anos de domínio Ptolomeu, o Povo de Deus pôde, em geral, viver na fidelidade à sua fé e aos seus valores ancestrais. Em 198 a.C., contudo, depois da batalha de Pânias, a Palestina passou para o domínio dos Selêucidas (uma família descendente de Seleuco Nicanor, general de Alexandre). Os Selêucidas, sobretudo com Antíoco IV Epífanes, procuraram impor, por vezes pela força, a cultura helênica. Nesse contexto muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam os valores tradicionais e a fé dos pais e assumiam comportamentos mais de acordo com a “modernidade” e com a pressão exercida pelas autoridades selêucidas. A identidade cultural e religiosa do Povo de Deus corria, assim, sérios riscos… Jesus Ben Sirá, um “sábio” judeu apegado às tradições dos seus antepassados, entendeu desenvolver uma reflexão que ajudasse os seus concidadãos a se manterem fiéis aos valores tradicionais. No livro que escreveu para esse efeito, Jesus Ben Sirá apresenta uma síntese da religião tradicional e da “sabedoria” de Israel e procura demonstrar que é no respeito pela sua fé, pelos seus valores, pela sua identidade que os judeus podem descobrir o caminho seguro para serem um povo livre e feliz.
Nos capítulos 14 e 15 do seu livro, Jesus Ben Sirá reflete sobre a forma de encontrar a verdadeira felicidade. É nesse enquadramento que a primeira leitura deste domingo nos propõe: dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Ben Sirá lhes sugere o caminho da verdadeira sabedoria e os convida a percorrê-lo.

2ª Leitura:  Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios  (1Cor 2: 6-10)

Corinto, capital da Província romana da Acaia, era uma cidade nova e muito próspera. Abrigava vários templos importantes, como o famoso templo de Apolo e o templo de Afrodite no topo da Acrópole, onde se praticava a prostituição sagrada. Disfrutando de uma localização geográfica vantajosa, entre o Mar Egeu e o Mar Jônico, tornou-se um centro comercial crucial para o transporte de mercadorias no Mediterrâneo. Servida por dois portos de mar (um que acolhia pessoas e mercadorias do ocidente e outro que recebia pessoas e mercadorias do oriente), possuía as características típicas das cidades marítimas: uma população de todas as raças e local onde estavam sediados todos os cultos e religiões. Além disso, Corinto era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

Paulo passou pela primeira vez em Corinto durante a sua segunda viagem missionária (anos 50-52). Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde; mas também havia elementos de origem hebraica. De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta, querelas, disputas, lutas, sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão.

Paulo escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), provavelmente quando estava em Éfeso. O apóstolo teve conhecimento de notícias que davam conta de problemas graves na comunidade de Corinto: divisões, conflitos e escândalos de vária índole. As divisões resultavam, em boa parte, do fato de os coríntios identificarem a experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Sendo assim, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido.

Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. O caminho cristão é a adesão a Cristo crucificado, o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele se manifesta, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.

Depois de denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, Paulo vai apresentar-lhes, de uma forma bem assertiva, a “sabedoria de Deus”.

Evangelho: segundo Mateus (Mt 5: 17-37)

O evangelista Mateus nos leva hoje, outra vez, até ao cimo de uma montanha da Galileia, onde Jesus pronuncia, diante dos seus discípulos, o famoso “sermão da montanha” (a tradição cristã identifica essa montanha com um pequeno monte com 150 metros de altura, situado a noroeste de Cafarnaum, junto do Mar da Galileia, designado em hebraico como Har HaOsher). É o primeiro de cinco discursos de Jesus que Mateus nos oferece e que, na perspetiva do evangelista, correspondem aos cinco livros da antiga Lei (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio), dada por Deus ao seu povo no Monte Sinai.

O “sermão da montanha reúne um importante conjunto de palavras (“ditos”) de Jesus onde Mateus vê as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista considera que as palavras de Jesus no “sermão da montanha” propõem um novo código ético, uma Lei nova que supera ao dar real sentido à velha Lei do Sinai.

Depois de, no preâmbulo do “sermão da montanha”, nos ter apresentado as “bem aventuranças” e a definição da missão dos discípulos, Mateus entra no corpo central do discurso.

Se Jesus vem propor uma “nova Lei”, que será da Lei antiga, a Lei outrora dada por Deus ao seu povo no Sinai? Tratava-se, evidentemente, de uma questão que preocupava bastante a comunidade cristã de Mateus, oriunda maioritariamente do mundo judaico e que continuava apegada à Lei de Moisés. Como é que Jesus se situa face à antiga Lei? Veio aboli-la? Qual é a novidade que Ele traz? A antiga Lei poderá coexistir com a proposta de Jesus?