Nos Evangelhos Sinópticos, a cena das “tentações de Jesus” está encaixada entre o episódio do batismo e o início da pregação do Reino de Deus (cf. Mc 1,12-13; Mt 4,1-11; Lc 4,1-13).
No batismo, Jesus, o “Filho muito amado” de Deus”, é ungido pelo Espírito, como os profetas. No mundo bíblico, a unção anda sempre associada a uma missão. Jesus tem consciência disso: quando o ungiu com o Espírito, o Pai Lhe dizia que contava com Ele para concretizar um projeto de salvação em favor dos homens.
Como é que Jesus se posiciona diante da missão que o Pai pretende confiar-Lhe? Como irá concretizá-la? Privilegiará os seus interesses pessoais, ou o projeto de Deus? O episódio das “tentações de Jesus” propõe-se responder a estas questões.
Trata-se de um episódio real, descrito de forma estritamente histórica, com um “diabo” a disputar a Jesus o centro do palco? Trata-se, fundamentalmente, de uma página de catequese. É muito provável que Jesus, após o seu batismo no rio Jordão, se tenha internado no deserto de Judá e passado alguns dias a meditar sobre a missão que Deus queria confiar-lhe. Nesse tempo de “retiro”, Jesus confrontou-se com uma luta interior, com opções fundamentais, com a definição do seu projeto de vida. É natural também que, mais tarde, Jesus tenha falado com os seus discípulos sobre o que sentiu quando teve de escolher, a fim de que eles percebessem que, diante da proposta do Reino de Deus, também eles tinham de tomar decisões. Esse diálogo deve ter causado uma profunda impressão nos discípulos. O fato de o relato das “tentações de Jesus” ser conhecido desde o início nas comunidades cristãs primitivas mostra isso mesmo.
O episódio é situado “no deserto”. O deserto é, no imaginário judaico, o lugar da “prova”, onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono de Deus e do seu projeto de libertação (embora seja, também, o lugar do encontro com Deus, o lugar da descoberta do rosto de Deus, o lugar onde o Povo fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade e no amor de Deus). Será que a história se vai repetir, que Jesus vai ceder à tentação e dizer “não” ao projeto de Deus, como aconteceu com os israelitas alguns séculos antes?
As “tentações de Jesus” não são contadas da mesma forma por todos os Sinópticos. Marcos limita-se a referir que Jesus “foi tentado”, sem entrar em pormenores; as narrativas que Mateus e Lucas fazem das “tentações” de Jesus são muito semelhantes entre si, embora a segunda e a terceira “tentação” apareçam, nos dois Evangelhos, em ordem diferente.