Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 28/Janeiro 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 1º / Fevereiro / 2026

4° Domingo do Tempo Comum, Ano A

1ª Leitura:  Livro da Profecia de Sofonías (Sf 2: 3, 3: 12-13)

Em 734 a.C. Acaz, rei de Judá, confrontado com a ameaça militar de uma coligação formada pelo rei de Damasco e pelo rei de Israel, pediu ajuda a Tiglat-Pileser III, rei da Assíria. Tiglat Pileser III derrotou os dois aliados, pondo fim à ameaça contra Judá; mas, na sequência, o rei Acaz tornou-se vassalo da Assíria. Judá passou a girar na órbita política da Assíria e teve de abrir as portas às influências culturais e religiosas dos assírios. Diversos costumes estranhos e cultos pagãos irromperam então em Jerusalém, pondo em causa a identidade nacional e minando a fidelidade do Povo a Javé. Essa situação manteve-se durante o longo reinado do ímpio Manassés (698-643 a.C.), altura em que o próprio rei reconstruiu os lugares de culto aos deuses estrangeiros, levantou altares ao deus Baal, ofereceu o seu filho em holocausto, dedicou-se à adivinhação e à magia, colocou no Templo de Jerusalém a imagem da deusa Astarte. Paralelamente, continuavam a multiplicar-se as injustiças sociais, as arbitrariedades, as violências que danificavam o tecido social e que faziam sofrer os mais pobres. Tudo isto configurava uma grave violação da Aliança e colocava Judá fora da órbita de Deus: o povo vangloriava-se da relação especial que tinha com Javé, mas vivia completamente à margem dos mandamentos de Deus. Quando em 639 a.C. o rei Josias (639-609 a.C.) subiu ao trono, Judá precisava urgentemente de uma profunda reforma política, social e religiosa. Josias, o novo rei, lançou-se a essa tarefa.

Sofonias começou o seu ministério profético por essa altura. É provável que, numa primeira fase da reforma religiosa empreendida por Josias, Sofonias tivesse sido o verdadeiro motor das mudanças que o rei pretendeu introduzir na vida da nação. Não sabemos quanto tempo durou o ministério de Sofonias. A maior parte dos biblistas prolongam-no até 625 a.C., aproximadamente.

A mensagem de Sofonias deve situar-se neste ambiente histórico. O profeta denuncia a idolatria cultual, as injustiças cometidas contra os mais pobres, o materialismo, a despreocupação religiosa, os abusos da autoridade… Consciente de que Javé não pode continuar a pactuar com o pecado de Judá, Sofonias deixa um aviso: se nada mudar, vai chegar o dia do Senhor, isto é, o dia da intervenção de Deus em que os maus serão castigados e a injustiça será banida da terra. Da ira do Senhor escaparão, contudo, os humildes e os pobres, os que se mantiverem fiéis à Aliança.

O objetivo da pregação de Sofonias não é, contudo, anunciar um castigo irrevogável, fruto da ira de Deus contra o seu povo; mas é provocar a conversão, passo fundamental para chegar à salvação.

2ª Leitura:  Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios  (1Cor 1: 26-31)

Corinto, capital da Província romana da Acaia, era, no séc. I, uma cidade nova e próspera. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após semanas de navegação. Na cidade, pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

Do esforço evangelizador de Paulo, entre os anos 50 e 52, nasceu a comunidade cristã de Corinto. De uma forma geral, era uma comunidade viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta, querelas, disputas, lutas, sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão. Afinal, a comunidade mergulhava as suas raízes em terreno adverso, onde os valores cristãos corriam o risco de ser sufocados pelos valores da brilhante cultura grega.

Pelas informações que constam da primeira Carta de Paulo aos Coríntios (escrita em Éfeso, durante a terceira viagem missionária de Paulo), percebemos que um dos problemas que perturbavam a comunidade cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Portanto, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ora, isto era fonte de discussões intermináveis e de divisões que afetavam a unidade e a comunhão.

Ao saber isto, Paulo ficou muito alarmado: as divisões e os partidos punham em causa o essencial da fé. Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. Aliás, Cristo não foi um mestre que se distinguiu pela elegância das suas palavras, pela sua arte oratória ou pela lógica do seu discurso filosófico; Ele foi o Deus que, por amor, veio ao encontro dos homens e lhes ofereceu a salvação através do dom da vida.

Os coríntios devem estar bem conscientes disto: o caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.

Evangelho: segundo Mateus (Mt 5: 1-12)

Depois de nos apresentar Jesus e de definir a sua missão, Mateus vai nos mostrar como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confiou. No centro dessa missão está o anúncio do Reino de Deus. As “bem-aventuranças” ocupam um lugar central nesse anúncio.

Mateus, na construção do seu Evangelho, concedeu uma importância significativa aos “ditos” de Jesus. O evangelista agrupou a maior parte desses “ditos” em cinco discursos atribuídos a Jesus. É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel guardou nos cinco livros da Tora (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio).

O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha”. Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “Sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.

Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: nos transporta à montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao Reino de Deus. Mateus, no entanto, sugere algumas diferenças entre aquilo que aconteceu no monte Sinai e aquilo que vai acontecer no monte das Bem-aventuranças. Antes de mais, no grupo que recebeu a Lei dada no Sinai, só havia israelitas; no grupo que sobe ao monte com Jesus parece haver uma “multidão” de gente de diversas origens e etnias, conferindo à proposta que Jesus vai apresentar uma inquestionável sugestão de universalidade: a nova Lei, trazida por Jesus, destina-se a todos os povos. Por outro lado, Mateus desenha o quadro do “sermão da montanha” de Jesus com traços bem diferentes do cenário do Sinai… Não há, como no relato da teofania do Sinai, qualquer referência ao fogo, à névoa, aos trovões e relâmpagos que geravam medo entre o povo, nem uma delimitação do terreno que impeça o povo de se aproximar do monte da revelação: na montanha onde Jesus fala, os discípulos estão próximos de Jesus e escutam-no com tranquilidade e sem medo. Jesus, o novo Moisés que traz a nova Lei, abre as portas a uma nova realidade, a uma nova forma de comunhão e de relação entre Deus e o seu povo.

As “bem-aventuranças” que Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das bem-aventuranças que aparecem no Evangelho segundo Lucas. Mateus tem oito “bem-aventuranças” (e uma exortação final), enquanto Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano. Outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito” - que nas escrituras originais em Hebraico se traduzem como "humildes na presença do Espírito" ou que se "dobram" à passagem do Espírito) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido trabalhado e retocado pela catequese cristã.