Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 21/ Outubro / 2026"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 25 / Outubro / 2026

30° Domingo do Tempo Comum - Ano A

1ª Leitura:  Livro do Êxodo (Ex 22: 20-26)

Três meses depois de terem escapado do Egito, os hebreus, conduzidos por Moisés, chegaram ao deserto do Sinai e acamparam diante de um monte. Foi diante desse monte que celebraram uma Aliança com Javé, o Deus que os tinha salvo da escravidão do Egito.

No texto bíblico não há indicações geográficas suficientes para conseguirmos identificar o “monte da Aliança”. Em si, o nome “Sinai” não designa um monte, mas sim uma enorme península de forma triangular, com mais ou menos 420 quilômetros de extensão norte/sul, estendendo-se entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. A norte, junto do Mediterrâneo, o Sinai apresenta uma faixa arenosa de cerca de 25 quilômetros de largura; mas à medida que se desce para sul, o território torna-se mais acidentado, com montanhas que chegam a atingir os 2600 metros de altura. Uma tradição cristã tardia (séc. IV) identifica o “monte da Aliança” com o Jebel Musa (o “monte de Moisés”), uma montanha com 2244 metros de altitude, situada a sul da península sinaítica. Embora a identificação do “monte da Aliança” com este lugar levante problemas, o Jebel Musa é, ainda hoje, um lugar de peregrinação para judeus e cristãos.

O compromisso (“berit” – “Aliança”) celebrado no Sinai, diante de um monte, entre Deus e Israel ficou plasmado num documento conhecido como “Decálogo” ou “Dez Palavras”. O “Decálogo” ou “Dez mandamentos” era, sem dúvida, o coração da Aliança e apresentava os valores fundamentais que deviam marcar o comportamento do Povo de Deus, quer em relação a Javé, quer em relação aos compromissos comunitários. No entanto, as leis do “Decálogo” elencavam princípios gerais e não consideravam todos os casos e situações particulares que a vida pode comportar. Foi necessário, portanto, definir outras normas, mais concretas, que regulassem as muitas situações e “casos” da vida. Nesse sentido, os legisladores de Israel acrescentaram ao “Decálogo” um bloco heterodoxo de leis, que se convencionou chamar “Código da Aliança”. Embora apresentadas como ditadas por Deus a Moisés são, na realidade, leis de proveniência diversa, cuja antiguidade continua a ser discutida, mas que a maioria dos comentadores faz remontar ao tempo dos “juízes” (séc. XII a.C.).

O “Código da Aliança” regula dimensões diversas da vida do Povo de Deus, desde o culto até às relações sociais. São prescrições, soluções, disposições, indicações que solucionam dificuldades, explicam princípios e ordenam a conduta dos homens nas situações comuns e variáveis da existência. Nele sobressai, não apenas uma consciência muito viva de que Israel é chamado à comunhão com Deus, mas também um forte sentido social. Mostra um Povo empenhado em concretizar os compromissos da Aliança na vida do dia a dia. Sugere, além disso, que a fé de Israel não é uma realidade abstrata ou fantasmagórica, mas algo bem vivo, que toca cada momento e cada passo da existência.

A primeira leitura deste domingo oferece-nos um extrato do “Código da Aliança”. Apresenta um conjunto de leis humanitárias que se destinam à proteção dos mais desamparados.

2ª Leitura:  1ª. Carta de São Paulo aos Tessalonicenses  (1Ts 1,5c-10)

A cidade de Tessalônica foi fundada em 315 a.C. por um dos generais de Alexandre Magno, Cassandro, que lhe deu o nome da sua esposa. Atravessada pela Via Egnácia – importante estrada romana que ligava o mar Egeu ao Adriático e a Bizâncio – e dotada de um importante porto de mar, Tessalônica tornou-se um grande centro de comércio. Era, além disso, uma encruzilhada religiosa, na qual os cultos locais coexistiam lado a lado com outras propostas religiosas vindas de todo o Mediterrâneo. Entre os cultos pagãos presentes na cidade contavam-se, para além dos autóctones, os cultos aos deuses egípcios e romanos, bem como o culto imperial. Porém, existia pelo menos uma sinagoga, o que assinala a presença da fé judaica na cidade.

A cidade foi evangelizada por Paulo durante a sua segunda viagem missionária, muito provavelmente no Inverno dos anos 49-50. Paulo chegou a Tessalônica acompanhado de Silvano e Timóteo, depois de ter sido forçado a deixar a cidade de Filipos. A permanência de Paulo na cidade não foi longa; mas da pregação de Paulo nasceu uma comunidade cristã numerosa e entusiasta, constituída maioritariamente por pagãos convertidos ao Evangelho.

Os membros da colônia judaica de Tessalônica não aceitaram bem o testemunho de Paulo. Acusaram-no de agir contra os decretos do imperador e levaram alguns cristãos diante dos magistrados da cidade. Paulo teve de deixar a cidade à pressa, de noite, indo para Bereia e, depois, para Atenas.

Afastado de Tessalônica, Paulo sentia-se inquieto com a sorte da jovem comunidade cristã que deixara para trás. Dado o pouco tempo que passara na cidade, o apóstolo não tinha conseguido completar a formação cristã dos tessalonicenses. A comunidade estava, assim, quase desarmada num contexto adverso de perseguição e de provação. Preocupado, Paulo enviou Timóteo a Tessalônica, a fim de saber notícias e encorajar os tessalonicenses na fé.

Quando Timóteo regressou de Tessalônica, reencontrou Paulo em Corinto. As notícias trazidas por Timóteo eram boas: os tessalonicenses davam um bom exemplo e mantinham-se firmes na fé. Confortado pelas informações trazidas por Timóteo, Paulo decidiu escrever aos cristãos de Tessalônica, felicitando-os pela sua fidelidade ao Evangelho. Aproveitou também para esclarecer algumas dúvidas doutrinais que inquietavam os tessalonicenses e para corrigir alguns aspetos menos exemplares da vida da comunidade.

A Primeira Carta aos Tessalonicenses é, com toda a probabilidade, o primeiro escrito do Novo Testamento. Apareceu na Primavera-Verão do ano 50 ou 51.O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como primeira leitura integra uma “ação de graças” na qual o apóstolo se congratula com a forma como os tessalonicenses acolheram e vivem o Evangelho que lhes foi anunciado.

Evangelho: segundo Mateus (Mt 22: 34-40)

Jesus está em Jerusalém, acompanhado pelos seus discípulos. Passa os dias no templo, a ensinar todos os que vêm ter com Ele e estão dispostos a ouvir a proposta do reino de Deus. Os líderes religiosos judaicos, por sua vez, aproveitam todas as oportunidades para questionar Jesus. A decisão deles está há muito tomada: a proposta que Jesus traz não vem de Deus e deve, portanto, ser rejeitada. Além disso, Jesus tem de ser silenciado, pois ameaça a religião e a ordem social. Os dirigentes da nação preparam-se, portanto, para O prender, levar a tribunal, condená-l’O de forma exemplar.

É neste cenário que Mateus situa três controvérsias entre Jesus e os chefes religiosos judaicos. Essas controvérsias são, na realidade, armadilhas destinadas a apanhar Jesus em falso. A ideia é levá-lo a fazer afirmações que possam depois ser usadas contra Ele em tribunal. Depois das controvérsias sobre o tributo a César e sobre a ressurreição dos mortos, chega a controvérsia sobre o maior mandamento da Lei. É esta última que o Evangelho deste domingo nos traz. Ao perguntar a Jesus qual é o maior mandamento da Lei, os fariseus procuram demonstrar que Jesus não sabe interpretar a Lei e que, portanto, não é digno de crédito.

A questão do maior mandamento da Lei era uma questão bastante pertinente, objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. O acervo de leis, nos textos judaicos sagrados, era imenso… Incluía, além do “Decálogo”, o “Código da Aliança”, a “Lei da santidade”, o “Código deuteronômico, o “Dodecálogo siquemita” e muitos outros mandamentos e proibições espalhados por todo o Pentateuco. Os mestres judaicos, na sua preocupação de propor a Lei de forma clara, tinham reduzido todo esse material legalista a um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 (tantos quantos os dias do ano) eram proibições e 248 (tantos quantos os membros do corpo humano, no entendimento dos rabis) eram ações a pôr em prática. Esta multiplicação dos preceitos legais lançava, evidentemente, a questão das prioridades: todos os preceitos têm a mesma importância, ou há algum que é mais importante do que os outros? A discussão era interminável, pois cada “mestre” tinha a sua perspetiva das coisas. É nessa discussão que os fariseus querem envolver Jesus “para O experimentar”.