O autor da designada “Primeira Carta de Pedro” apresenta-se como “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo”, “presbítero”, “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há de manifestar”. O apóstolo Pedro conhecido da tradição cristã é, naturalmente, Simão Pedro, o pescador do Mar da Galileia, irmão de André, que habitava na cidade de Cafarnaum e a quem Jesus certo dia, chamou para ser “pescador de homens”.
No entanto, parece bastante improvável que Pedro, o pescador do Mar da Galileia, tenha sido o autor desta carta. Antes de mais, por questões de ordem literária: a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria o estilo de um pescador galileu pouco instruído, como seria o caso de Pedro. Depois, porque a situação das comunidades cristãs referidas na carta parece situar-nos dentro dos anos oitenta, numa época em que se sentia claramente a hostilidade do Império contra os cristãos e começavam a perspetivar-se no horizonte as grandes perseguições do final do séc. I. Por essa altura, Pedro há muito teria morrido (segundo a tradição cristã, o apóstolo foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por volta do ano 66-67).
A partir destes dados, o mais provável é que o autor da referida carta seja um cristão cujo nome ignoramos – provavelmente um responsável de uma comunidade cristã – empenhado em fortalecer o compromisso dos cristãos que viviam em algumas zonas rurais da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80).Os destinatários da missiva seriam ainda, de acordo com o texto, os “eleitos” de Deus que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia” (1Pe 1,1b). Trata-se de comunidades cristãs de âmbito rural, constituídas maioritariamente por camponeses pobres, que cultivam as propriedades de gente rica. Também há, entre eles, pequenos proprietários que vivem em aldeias, fora dos grandes centros urbanos. São pessoas economicamente débeis, vulneráveis à hostilidade que o império romano começa a manifestar em relação ao cristianismo.Conhecendo bem as provações que estes cristãos sofrem, o autor da Carta exorta-os a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.
O texto que nos é proposto integra uma perícope em que o autor apresenta aos destinatários da carta um conjunto de conselhos práticos sobre a conduta que os cristãos devem assumir em várias situações da vida. Mais especificamente, o nosso texto reflete sobre os deveres dos servos face aos seus senhores.