Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 29 / Abril 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 3 / Maio / 2026

5° Domingo de Páscoa - Ano A

1ª Leitura:  Atos dos Apóstolos (At 6: 1-7)

O episódio dos Atos dos Apóstolos narrado pela primeira leitura deste domingo integra a primeira parte do livro. Propõe-nos mais um quadro sobre a vida e o testemunho da primitiva comunidade cristã de Jerusalém.
Os cristãos de Jerusalém viviam com entusiasmo o seu compromisso com Jesus e davam um belo testemunho da fé que os animava; mas não eram perfeitos: aqui e ali vinham ao de cima problemas e tensões inerentes à convivência de pessoas com ideias e experiências de vida nem sempre coincidentes. O texto refere-se, concretamente, a um clima de tensão entre dois grupos: os “judeus” e os “helenistas”. Quem são estes grupos e o que é que os dividia?Trata-se, sempre, de membros da comunidade cristã de Jerusalém. Os “judeus” são cristãos de origem judaica, originários da Palestina, que falam o aramaico, que leem a Escritura em hebraico e que teriam sido convertidos pela pregação de Jesus e dos apóstolos. Continuam, no entanto, muito apegados às suas tradições e têm um alto apreço pela Lei de Moisés e pelas interpretações dos rabis.
Os “helenistas” são cristãos de origem judaica, também, mas originários da “diáspora” israelita – isto é, das comunidades judaicas espalhadas por todo o império romano e até por fora dele. Falam o grego e leem as Escrituras em grego. Residem em Jerusalém temporariamente. O seu contato com outras realidades culturais torna-os, ordinariamente, mais tolerantes e abertos à novidade.
Com dois grupos tão diversos – do ponto de vista cultural, religioso e social – a conviver dentro da mesma comunidade, era natural que, mais tarde ou mais cedo, surgissem tensões e conflitos. Aparentemente, aquilo que provoca a questão evocada no nosso texto é um problema de ordem material: na distribuição dos alimentos aos membros necessitados da comunidade, as viúvas helenistas sentiam-se prejudicadas. O fato provocou queixas, levando à intervenção dos líderes da comunidade.

2ª Leitura:  Primeira Carta de S. Pedro  (1Pd 2: 4-9)

A primeira Carta de Pedro é endereçada aos cristãos de cinco províncias romanas da Ásia Menor (a carta cita explicitamente a Bitínia, o Ponto, a Galácia, a Ásia e a Capadócia. Não sabemos exatamente quem é o seu autor. É verdade que ele, logo no início da carta, se apresenta com o nome do apóstolo Pedro; contudo, a análise literária e teológica da carta não confirma essa indicação. Em termos literários, a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria a maneira de escrever de um pescador pouco instruído, como era o caso de Pedro; em termos teológicos, a “catequese” apresentada parece nos situar numa época bem posterior à de Pedro, quando a reflexão cristã já tinha conhecido uma significativa evolução. A tudo isto devemos acrescentar um outro dado significativo: o “ambiente” descrito na carta corresponde, claramente, à situação das comunidades cristãs nos últimos anos do século primeiro. Ora, se Pedro morreu em Roma durante a perseguição de Nero (por volta do ano 67), não pode ser o autor deste escrito. O autor da carta será, portanto, um cristão anônimo culto e que conhece profundamente a difícil situação das comunidades cristãs da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80), provavelmente a partir de uma comunidade cristã não identificada da Ásia Menor.
Os destinatários desta carta parecem ser comunidades cristãs das zonas rurais da Ásia Menor. A maioria dos membros dessas comunidades são camponeses pobres, que cultivam as propriedades da gente rica. Também há, nestas comunidades, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. Trata-se, em qualquer caso, de gente que economicamente débil e vulnerável à hostilidade que o Império começa a manifestar para com o cristianismo.
O autor da carta exorta esses cristãos a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.
O texto que nos é proposto faz parte de uma seção parenético-doutrinal, que tem como finalidade exortar os cristãos a crescer na fé, de forma a chegarem à salvação.
(*) Parenética: chamada ou exortação moral
(**) Dountrinal: instrução sobre comportamento

Evangelho: segundo João (Jo 14: 1-12)

Pouco depois de ter entrado em Jerusalém, montado num jumentinho e aclamado por uma multidão, Jesus entendeu que tinha chegado a “hora”, o momento de entregar a sua vida “até ao extremo” para que o projeto do Pai se concretizasse. A paixão, morte e glorificação estavam no horizonte próximo de Jesus de Nazaré.
Consciente, portanto, de que o seu tempo estava se esgotando, Jesus propôs-se celebrar uma ceia de despedida com os seus discípulos. Essa ceia realizou-se numa noite de quinta-feira, véspera da Páscoa judaica, numa sala emprestada por um amigo, na cidade de Jerusalém. Este casal amigo eram quase que certamente os pais de João Marcos, o "Marcos" que se tornaria futuramente um dos evangelistas.
Jesus viria a ser preso nessa mesma noite num horto situado no vale do Cédron, junto do monte das Oliveiras. Levado pela polícia do templo para casa do sumo-sacerdote, aí foi julgado, condenado e torturado. Na manhã do dia seguinte foi conduzido diante do Pôncio Pilatos, o governador romano, o qual confirmou a sentença de morte a que os líderes judaicos tinham determinado. Morreu na tarde de sexta-feira, pregado numa cruz, na colina do Gólgota, fora das muralhas de Jerusalém.
Aquela inolvidável ceia de despedida celebrada na quinta-feira é dominada por este cenário. Enquanto comiam e conversavam, pairavam na mente e no coração de todos os convivas algumas questões verdadeiramente decisivas: que seria do projeto do Reino de Deus sem Jesus? Que deveriam fazer e como deveriam viver aqueles discípulos, deixados “órfãos” pela “partida” do seu “Mestre”? Onde haveriam eles de alimentar, futuramente, a sua esperança na vinda do reino de Deus? Como poderiam os discípulos se manterem em comunhão com Jesus?
Durante a ceia, Jesus falou longamente com os discípulos e referiu-se às questões que os inquietavam. Acalmou-lhes os medos e transmitiu-lhes paz; lembrou-lhes, com gestos e palavras, os valores do reino de Deus; recordou-lhes o essencial do que lhes tinha dito e ensinado enquanto percorria com eles os caminhos da Galileia e da Judeia; prometeu-lhes que lhes enviaria o Espírito Santo e garantiu-lhes a sua presença e a sua assistência em todos os passos do caminho que iam percorrer; alertou-os para as dificuldades que iam encontrar, mas assegurou-lhes a vitória sobre as forças da morte…Tudo o que foi dito e vivido nessa noite soou a testamento final e deixou uma impressão profunda nos discípulos que participaram na ceia. As palavras de Jesus que o Evangelho do quinto domingo do tempo pascal nos oferece integram o “testamento de Jesus” e devem ser colocadas e entendidas neste cenário.