Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 4 / Março 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 8 / Março / 2026

3° Domingo do Tempo da Quaresma, Ano A

1ª Leitura:  Livro do Êxodo (Ex 17: 3-7)

Um dos grandes temas do livro do Êxodo é a marcha pelo deserto dos hebreus libertados por Javé da escravidão do Egito. A seção de Ex 15, 22-18, 27 se refere às vicissitudes da primeira etapa dessa marcha: a que vai desde a passagem do mar até à chegada do povo diante da montanha do Sinai.

Nesta primeira fase do caminho do deserto, está bem presente a imaturidade daquele grupo de homens e mulheres que ainda funcionam com mentalidade de escravos e ainda não assumiram o risco da liberdade. As dificuldades do caminho desorganizam e incomodam; e eles, perante as contrariedades, não se coíbem de criticar Moisés e de murmurar contra Deus. O esquema é sempre o mesmo: diante das dificuldades que encontra no caminho, o Povo murmura, revolta-se contra Moisés e acusa Deus pelos desconfortos da caminhada; Moisés intervém e intercede junto de Deus; finalmente, Deus acaba por conceder ao Povo os bens de que este sente necessidade. Os relatos se apresentam sempre de uma forma dramática, num crescendo de intensidade até ao desfecho final.

Provavelmente, estes relatos têm por base dificuldades concretas sentidas pelos hebreus no seu caminho pelo deserto em direção à Terra Prometida. Não é fácil sobreviver nas condições hostis do deserto. No entanto, os beduínos conheciam diversos “truques” que lhes permitiam enfrentar com êxito a sua luta diária pela existência. Um desses “truques” consistia em procurar água em rochas porosas que, quando quebradas em certo lugar, proporcionavam o acesso à água que armazenavam no seu interior. É possível que o episódio narrado no texto que a liturgia hoje nos propõe como primeira leitura nos situe neste cenário.

Seja como for, a verdade é que os teólogos de Israel recolheram essas tradições e as utilizaram com um objetivo catequético. Os catequistas que nos deixaram estes relatos não se propuseram fazer uma reportagem factual dos acontecimentos históricos vividos ao longo do caminho percorrido pelos hebreus, mas sim fazer catequese. Percebe-se nas entrelinhas que a grande preocupação de quem compôs estes relatos é pôr o Povo de sobreaviso contra a tentação de procurar refúgio e segurança longe de Javé.

Portanto, a dado passo da sua caminhada pelo deserto, os hebreus se deparam com a falta de água e se queixam a Moisés. O episódio é situado em Refidim, no sul da península do Sinai. Curiosamente uma outra tradição refere um episódio muito semelhante e o coloca a norte, nos arredores de Kadesh. Serão dois episódios semelhantes, ligados a grupos distintos de nômades que, em épocas diferentes, fugiram do Egito, ou tratar-se-á do mesmo episódio narrado por duas tradições diferentes? Não o sabemos. O que é evidente é que os teólogos de Israel utilizaram esta história para reafirmar o empenho de Deus em “salvar” o seu povo e em conduzi-lo em segurança da escravidão para a liberdade.

2ª Leitura:  Carta de S. Paulo aos Romanos  (Rm 5: 1-2, 5-8)

Roma era, na altura em que o apóstolo Paulo escreve a sua carta à comunidade cristã da cidade, o centro do mundo antigo. Roma tinha, por essa altura, cerca de um milhão de habitantes, dos quais 50.000 eram judeus.

Não sabemos como foi fundada a Igreja de Roma. A tradição diz que foi o apóstolo Pedro que, de passagem pela cidade, aí teria anunciado o Evangelho de Jesus. O mais provável, contudo, é que a comunidade tenha nascido a partir do testemunho de judeo-cristãos que deixaram Jerusalém e se estabeleceram em Roma poucos anos após a morte de Jesus.

Quando escreve aos Romanos, por volta do ano 57 ou 58, Paulo está prestes a deixar Corinto, a caminho de Jerusalém, no final da sua terceira viagem missionária. O apóstolo sente que terminou a sua missão no oriente e quer agora levar o Evangelho a outros cantos do mundo, nomeadamente ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a ocasião para contactar a comunidade de Roma e para apresentar aos Romanos os principais problemas que o ocupavam (entre os quais avultava o problema da unidade – um problema bem atual na comunidade cristã de Roma, então afetada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos).

Paulo aproveita para dizer aos Romanos e a todos os cristãos que o Evangelho deve unir e congregar todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Para desfazer algumas ideias de superioridade (e, sobretudo, a pretensão judaica de que a salvação se conquista pela observância da Lei de Moisés), Paulo nota que o pecado é uma realidade que atinge todos os homens, sem exceção, e que ninguém está de fora desse cenário. É Deus que, na sua imensa misericórdia, “justifica” o homem pecador e lhe oferece um perdão não merecido. A salvação não vem do mérito do homem, mas sim da “justiça de Deus” que a todos dá a vida.

No texto que a segunda leitura do terceiro domingo da quaresma nos propõe, Paulo refere-se à ação de Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.

Evangelho: segundo João (Jo 4: 5-42)

A narração do evangelista João nos leva até junto de um poço, na cidade samaritana de Sicar. A Samaria era a região central da Palestina – uma região heterodoxa, habitada por uma raça de sangue misturado (de judeus e pagãos) e de religião sincretista.

Na época do Novo Testamento, existia uma animosidade com raízes bem antigas entre samaritanos e judeus. A divisão entre as duas comunidades começou logo após a morte de Salomão (932 a.C), quando as tribos do norte e do centro se recusaram a aceitar Roboão, filho de Salomão, como seu rei. O país dividiu-se: as tribos do norte e do centro escolheram para rei um tal Jeroboão e constituíram o reino de Israel, com capital em Siquém; as tribos do sul permaneceram sob a autoridade de Roboão, filho de Salomão, constituindo o reino de Judá, com capital em Jerusalém. A partir daqui, os dois grupos seguiram caminhos separados.

A situação piorou quando, em 721 a.C., o reino de Israel foi tomado pelos assírios e uma parte da população da Samaria (cerca de quatro por cento) foi deportada para a Assíria. Foi o fim do reino de Israel. Na Samaria instalaram-se, por essa altura, colonos assírios que se misturaram com a população local. Para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se. Em 586 a.C. foi a vez de Judá sofrer uma derrota às mãos dos babilônios e de a maior parte da população de Jerusalém ter sido levada para o cativeiro, para a Babilônia.

A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso dos judeus do Exílio na Babilônia, estes recusaram a ajuda dos samaritanos para reconstruir o Templo de Jerusalém (ano 437 a.C.) e denunciaram os casamentos mistos. Tiveram, então, de enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade. No ano 333 a.C., um novo fator veio agravar o conflito: os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim, um templo que pretendia fazer concorrência ao templo de Jerusalém. O Templo samaritano do monte Garizim viria a ser destruído em 128 a.C., por João Hircano.

As picardias continuaram entre os dois grupos. A mais famosa aconteceu por volta do ano 6 d.C., quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios.

Na época neotestamentária era ponto claro, para os judeus, que os samaritanos eram hereges, pois tinham sangue de povos estrangeiros e praticavam uma religião sincretista, que misturava elementos da fé javista com elementos religiosos herdados de outros povos. Os samaritanos, por sua vez, desprezavam profundamente os judeus.

O poço referido na narrativa joânica era conhecido como o “poço de Jacob”. Estava situado no rico vale entre os montes Ebal e Garizim, não longe da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a atual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacob. Os dados arqueológicos revelam que o “poço de Jacob” serviu os samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C. (embora ainda hoje se possa extrair dele água).

Na tradição religiosa de Israel, o “poço” é um elemento mítico, que parece referido em numerosos textos e evoca a presença de Deus que acompanha o seu povo ao longo da sua peregrinação pela história. Sintetiza os poços abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto (primeira leitura de hoje); mas, sobretudo, torna-se figura da Lei (do poço da Lei brota a água viva que mata a sede de vida do Povo de Deus), que a tradição judaica considerava observada já pelos patriarcas, antes de ser dada ao Povo por Moisés.

O Evangelho segundo São João apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. No chamado “Livro dos Sinais”, o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias.

O nosso texto é, exatamente, a primeira catequese do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da água, o autor vai descrever a ação criadora e vivificadora de Jesus.