Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 13 / Maio 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 17 / Maio / 2026

7° Domingo de Páscoa - Ano A
Ascensão do Senhor

1ª Leitura:  Atos dos Apóstolos (At 1: 1-11)

O livro dos “Atos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem num certo contexto de crise. Estamos na década de 80, cerca de cinquenta anos após a morte de Jesus. Passou já a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o “Reino” e há uma certa desilusão. As questões doutrinais trazem alguma confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade; falta o entusiasmo e o empenho… O quadro geral é o de um certo sentimento de frustração, porque o mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada. Quando vai concretizar-se, de forma plena e inequívoca, o projeto salvador de Deus?

É neste ambiente que podemos inserir o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura. Nele, o catequista Lucas avisa que o projeto de salvação e de libertação que Jesus veio apresentar passou (após a ida de Jesus para junto do Pai) para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito. A construção do “Reino” é uma tarefa que não está terminada, mas que é preciso concretizar na história e exige o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu.

O livro dos Atos dos Apóstolos é o segundo de uma obra de dois volumes. No primeiro, o Evangelho segundo Lucas, o autor conta a história da vida pública de Jesus, e neste segundo, ele retrata o nascimento da Igreja Cristã.

2ª Leitura:  Carta de S. Paulo aos Efésios  (Ef 1: 17-23)

Quando São Paulo Apóstolo escreveu a Carta aos Efésios, ele falava a uma comunidade inserida em um dos ambientes mais ricos, complexos e espiritualmente intensos do mundo antigo. Éfeso era uma grande metrópole do Império Romano, localizada na costa ocidental da Ásia Menor, na atual Turquia, próxima ao mar Egeu. Sua posição geográfica fazia dela um importante centro comercial e marítimo, ponto de encontro entre culturas orientais e ocidentais. Navios chegavam constantemente ao seu porto trazendo mercadores, soldados, viajantes, filósofos e peregrinos. As ruas eram movimentadas, as construções grandiosas e a vida urbana profundamente marcada pelo luxo, pela religiosidade pagã e pela influência romana. A cidade possuía teatros monumentais, mercados, banhos públicos e largas avenidas de mármore, refletindo prosperidade e poder político.

Mas o coração espiritual de Éfeso era o gigantesco Templo de Ártemis, considerado uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. A deusa Ártemis era venerada como protetora da cidade, símbolo de fertilidade, prosperidade e identidade local. Sua adoração atraía peregrinos de muitas regiões, movimentando intensamente a economia. Fabricantes de imagens da deusa, comerciantes religiosos e sacerdotes dependiam financeiramente desse culto. Por isso, quando o cristianismo começou a crescer pela pregação de Paulo, houve forte resistência. A mensagem de Jesus Cristo ameaçava não apenas crenças religiosas, mas também interesses econômicos profundamente estabelecidos. Em Atos dos Apóstolos vemos inclusive um grande tumulto provocado por artesãos que temiam perder seus lucros com a diminuição da idolatria.

Além do paganismo tradicional, Éfeso era famosa por práticas ocultas e crenças espirituais intensas. Havia forte presença de magia, amuletos, fórmulas místicas, exorcismos e temor de espíritos e poderes invisíveis. Muitos acreditavam em forças cósmicas capazes de influenciar diretamente a vida humana. Isso ajuda a compreender por que a carta aos Efésios fala tanto sobre “principados”, “potestades” e combate espiritual. Quando Paulo descreve a “armadura de Deus” e afirma que a luta do cristão não é contra carne e sangue, mas contra forças espirituais do mal, ele está dialogando com um povo acostumado a viver cercado pelo medo do invisível. A diferença é que Paulo proclama que Cristo está acima de todo poder espiritual, acima de qualquer domínio ou autoridade, e que o cristão não precisa viver escravizado pelo medo.A sociedade efésia seguia os costumes típicos do mundo greco-romano. A estrutura familiar era patriarcal, os homens tinham ampla autoridade dentro de casa e a escravidão fazia parte da vida cotidiana. Havia profundas diferenças entre ricos e pobres, cidadãos romanos e estrangeiros, livres e escravos. Nesse contexto, a mensagem cristã trazia algo revolucionário: todos são um em Cristo. Paulo insiste fortemente na unidade da Igreja, afirmando que judeus e gentios agora formam um só povo. Isso era extraordinário numa cidade multicultural marcada por divisões étnicas, sociais e religiosas. A comunidade cristã em Éfeso reunia pessoas muito diferentes entre si, e a carta procura mostrar que a verdadeira identidade dos fiéis não vem mais da origem cultural, mas da pertença ao Corpo de Cristo.

Também por isso a carta possui um tom elevado, contemplativo e profundamente espiritual. Paulo apresenta a Igreja como templo santo, corpo vivo de Cristo e esposa amada do Senhor. Em meio à grandiosidade dos templos pagãos e do poder romano, ele revela uma realidade invisível ainda maior: a Igreja fundada por Cristo. O ambiente de Éfeso, com sua mistura de riqueza, idolatria, medo espiritual, diversidade cultural e influência imperial, torna ainda mais impressionante a força da mensagem cristã anunciada ali. A carta aos Efésios nasce justamente desse cenário: uma cidade poderosa externamente, mas espiritualmente sedenta, à qual Paulo anuncia que somente em Cristo o homem encontra verdadeira paz, unidade e salvação.

Evangelho: segundo Mateus (Mt 28: 16-20)

O texto situa-nos na Galileia, após a ressurreição de Jesus (embora não se diga se é muito ou pouco tempo após a descoberta do túmulo vazio). De acordo com Mateus, Jesus – pouco antes de ser preso – havia marcado encontro com os discípulos na Galileia; na manhã da Páscoa, os anjos que apareceram às mulheres no sepulcro e o próprio Jesus, vivo e ressuscitado, renovam o convite para que os discípulos se dirijam à Galileia, a fim de lá encontrar o Senhor.

A Galileia – região setentrional (norte) da Palestina – era uma região próspera e bem povoada, de solo fértil e bem cultivado. A sua situação geográfica fazia desta região o ponto de encontro de muitos povos; por isso, um número importante de pagãos fazia parte da sua população. A coabitação de populações pagãs e judias fazia, certamente, com que os judeus da Galileia vivessem a religião de uma maneira diferente dos judeus de Jerusalém e da Judeia: a presença diária dos pagãos conduzia, provavelmente, os galileus a suavizar a sua prática da Lei e a interpretar mais amplamente as regras que se referiam, por exemplo, às impurezas rituais contraídas pelo contato com os não judeus. No entanto, isto fazia com que os judeus de Jerusalém desprezassem os judeus da Galileia e considerassem que da Galileia “não podia sair nada de bom”.

No entanto, foi na Galileia que Jesus viveu quase toda a sua vida. Foi, também, na Galileia que Ele começou a anunciar o Evangelho do “Reino” e que começou a reunir à sua volta um grupo de discípulos. Para Mateus, esse fato sugere que o anúncio libertador de Jesus tem uma dimensão universal: destina-se a judeus e pagãos.

Mateus situa este encontro final entre Jesus ressuscitado e os discípulos num “monte que Jesus lhes indicara”. Trata-se, no entanto, de uma montanha da Galileia que é impossível identificar geograficamente, mas que talvez Mateus ligue com a montanha da tentação e com a montanha da transfiguração. De qualquer forma, o “monte” é sempre, no Antigo Testamento, o lugar onde Deus se revela aos homens.