Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 21/Janeiro 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 25 / Janeiro / 2026

3° Domingo do Tempo Comum, Ano A

1ª Leitura:  Livro do Profeta Isaías (Is 8: 23b - 9: 3)

O profeta Isaías (autor dos caps. 1-39 do Livro de Isaías) nasceu por volta do ano 760 a. C., no tempo do rei Ozias. De origem nobre, parece ter vivido em Jerusalém.

Isaías sentiu-se chamado por Deus à vocação profética quando tinha cerca de vinte anos. Sabemos também que casou e teve filhos.  Desconhecemos o nome da esposa, conhecida somente como “a profetiza”.

O carácter de Isaías pode conhecer-se suficientemente através da sua obra. É um homem decidido, sem falsa modéstia, que se oferece voluntariamente a Deus no momento do seu chamamento vocacional. Seguramente, faz parte dos notáveis do país: participa nas decisões relativas ao Reino, falando com autoridade aos altos funcionários e mesmo aos reis. É enérgico e nunca se deixa desanimar. É inimigo da anarquia; mas isso não significa que apoie as classes altas. Na verdade, os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes: autoridades, juízes, latifundiários, políticos. É duro e irônico com as mulheres da classe alta de Jerusalém. Defende com paixão os oprimidos, os órfãos, as viúvas, o povo explorado e desencaminhado pelos governantes.

Os últimos oráculos de Isaías são de 701 ou, talvez, de 689 a. C., altura em que o rei assírio Senaquerib invadiu Judá e pôs cerco a Jerusalém. Isaías deve ter morrido poucos anos depois, embora não saibamos ao certo quando. Um apócrifo judeu do séc. I d. C. – “Ascensão de Isaías” – afirma que foi assassinado pelo rei ímpio Manassés.

Em 721 a.C. o rei assírio Sargão II invadiu o reino do Norte (Israel), tomou a Samaria e deportou uma parte da sua população para a Assíria. As melhores terras da Samaria foram ocupadas por colonos assírios que se instalaram na região e se misturaram com a população local. Esse acontecimento histórico inaugurou uma época de desolação e de trevas para as tribos do Povo de Deus que ocupavam a região setentrional da Palestina, nomeadamente os antigos territórios de Zabulão e de Neftali, e toda a região da Galileia.

No sul do país, Ezequias (716-687 a.C.) subiu ao trono de Judá alguns anos depois da queda da Samaria. Era a época em que o poder militar assírio se impunha em toda a região. Durante algum tempo, Ezequias evitou envolver-se nos jogos da política internacional, a fim de não proporcionar aos assírios pretextos para invadir Judá. Mas em 705 a.C., após a morte de Sargão II, Ezequias, desdenhando as indicações do profeta Isaías (para quem as alianças políticas com os povos estrangeiros eram sintoma de grave infidelidade para com Javé, pois significavam colocar a confiança e a esperança nos homens), enviou embaixadas ao Egito, à Fenícia e à Babilônia, procurando consolidar uma frente política e militar capaz de lutar contra os desígnios imperialistas dos assírios. Senaquerib, o sucessor de Sargão II no trono assírio, dispôs-se imediatamente a castigar as nações que desafiavam o poderio assírio. Tendo vencido sucessivamente os membros da coligação, invadiu finalmente Judá, devastou o país e pôs cerco a Jerusalém (701 a.C.). O rei Ezequias teve de submeter-se e a pagar um pesado tributo à Assíria.

Nesta circunstância, o profeta Isaías assumiu uma atitude bastante crítica em relação aos dirigentes de Judá, considerando-os incapazes de governar de forma sensata e de conduzir o povo de Deus em direção à paz e à prosperidade. Desiludido com os líderes humanos, o profeta começou a pensar numa intervenção de Deus que derrotasse os opressores e devolvesse a Israel e a Judá a liberdade e a paz. O texto que a liturgia deste terceiro domingo comum nos propõe como primeira leitura poderia entender-se neste contexto.

2ª Leitura:  Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios  (1Cor 1: 10-13, 17)

Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, depois de ter passado por Tessalônica, Bereia e Atenas. Começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos, e aos sábados usava da palavra na sinagoga. Como resultado da sua pregação, nasceu a comunidade cristã de Corinto. Paulo ficou na cidade cerca de dezoito meses (entre os anos 50 e 52).

A dada altura, porém, os líderes da comunidade judaica reprovaram o testemunho que Paulo dava sobre Jesus e o expulsaram da sinagoga. Paulo decidiu então dedicar-se à evangelização dos pagãos. Os judeus, no entanto, acusaram-no de atividades contrárias à fé judaica e levaram-no diante de Galião, procônsul da Acaia, para ser julgado. Galião, a quem essas questões religiosas típicas dos judeus não interessavam, recusou-se a tomar posição. De Corinto, Paulo foi para Éfeso e de lá voltou a Antioquia da Síria, a cidade de onde tinha partido em missão.

Paulo continuou, contudo, em contacto com a comunidade cristã de Corinto. Sempre solícito, sempre interessado, Paulo recebia notícias e inteirava-se regularmente das dificuldades e problemas que os seus amigos de Corinto enfrentavam.

Mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), possivelmente quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias alarmantes (levadas “pela gente de Cloé”) sobre a comunidade de Corinto.  Após a sua partida da cidade, tinha aparecido em Corinto um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Alexandria, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polêmica com os judeus. Na pregação, Apolo era mais brilhante do que Paulo – conhecido pela sua falta de eloquência. Formaram-se partidos na comunidade (embora, segundo parece, Apolo não favorecesse essa divisão): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo. Os cristãos de Corinto, ainda imbuídos de uma mentalidade pagã, transplantaram para a comunidade o esquema das escolas filosóficas gregas, cada uma com os seus mestres e os seus adeptos. Neste quadro, multiplicavam-se as divisões, os conflitos, as discussões que deixavam feridas abertas na comunidade. Mais grave ainda: o cristianismo corria o risco de deixar de ser o seguimento de Jesus Cristo, para se tornar uma proposta de “saber” cuja validade dependia do poder de sedução dos mestres que “vendiam” aos próprios adeptos as suas ideias.

Evangelho: segundo Mateus (Mt 4: 12-23)

Depois de ter recebido o batismo no rio Jordão, Jesus permaneceu algum tempo no deserto, talvez ligado a João Batista. O tempo passado no deserto foi, para Jesus, um tempo de preparação para a missão. É natural que, durante esse tempo, Jesus tenha refletido sobre a missão que o Pai Lhe confiava e tenha definido as grandes linhas do seu ministério. Sentiu que o tempo de preparação para a intervenção de Deus, de que João falava, tinha terminado e que começava um tempo novo, o tempo da salvação. Jesus achava que essa nova etapa da história da salvação estava ligada à sua pessoa e ao seu ministério: Deus enviava-O a anunciar a presença de Deus na história dos homens – o “Reino de Deus”.

Então, Jesus deixou o deserto onde tinha passado algum tempo e deslocou-se para a terra habitada de Israel. A salvação de Deus ia ao encontro dos homens nos lugares onde eles viviam e trabalhavam. Transformado em profeta itinerante, Jesus pretendia percorrer as aldeias e vilas da Galileia para anunciar a todos a chegada de Deus, desse Deus misericordioso e bom, que vinha oferecer uma vida mais digna e mais humana a todos os seus queridos filhos. Estávamos no ano 28 e Jesus teria uns trinta e dois anos.

Jesus dirigiu-se para a Galileia, a região que conhecia bem pois aí tinha passado a maior parte da sua vida. A Galileia tinha a vantagem de ficar longe de Jerusalém, havendo por isso menos controle por parte das autoridades religiosas judaicas. Jesus, no entanto, não se instalou na pequena aldeia de Nazaré, onde vivia a sua família, mas estabeleceu-se em Cafarnaum, cidade situada na margem do lago de Tiberíades, também chamado Mar da Galileia. A cidade tinha entre 1.000 e 1.500 habitantes. Parte dos habitantes de Cafarnaum vivia da agricultura; os outros eram pescadores, comerciantes e artesãos. Em Cafarnaum funcionava uma alfândega onde os funcionários – os cobradores de impostos – controlavam o movimento de uma importante via comercial pela qual chegavam mercadorias de grande valor vindas do oriente. A cidade contava ainda com uma guarnição romana constituída por cerca de cem soldados.