O texto que a liturgia deste dia nos propõe como primeira leitura nos situa em Jerusalém, na manhã do dia do Pentecostes.
Após a Ascensão, os discípulos tinham estado no Cenáculo, à espera que se cumprisse a promessa que Jesus lhes tinha feito: “ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo”. Ora, de acordo com o relato de Lucas, essa promessa cumpriu-se no dia do Pentecostes [pentēkostḗ (πεντηκοστή)] ou "quinquagésimo 'dia'), quando o Espírito Santo desceu sobre a comunidade reunida no Cenáculo. Nesse dia, transformados e fortalecidos pelo Espírito, os discípulos abandonaram a segurança das paredes do Cenáculo e assumiram, diante dos habitantes de Jerusalém, a missão de serem testemunhas de Jesus. De acordo com o autor do livro dos Atos dos Apóstolos, foi Pedro que, em nome da comunidade dos discípulos, tomou a palavra para “anunciar as maravilhas de Deus” e para oferecer a todos os presentes um primeiro anúncio sobre Jesus.
A festa judaica do Pentecostes (em hebraico “Shavu’ot”) que os judeus celebravam por esses dias era também designada por “festa das semanas” e “festa das primícias”. Ocorria cinquenta dias após a Páscoa e era, antes de mais, uma festa agrícola: terminada a colheita dos cereais, os agricultores dirigiam-se ao Templo, ao som de música de flautas, para entregar a Deus os primeiros frutos da colheita (“bikurim”). Eram acolhidos com cânticos de boas vindas, entravam no templo e entregavam nas mãos dos sacerdotes os cestos com os frutos que tinham trazido. Mais tarde, contudo, a tradição rabínica ligou esta festa à celebração da “aliança” e ao dom da Lei, por Deus, no Sinai; e, no séc. I, esta dimensão tinha um lugar importante na celebração do Pentecostes.
As palavras que, segundo Lucas, Pedro naquele dia dirigiu à multidão reunida em Jerusalém para celebrar a festa judaica do Pentecostes serão rigorosamente históricas? Não. Trata-se, certamente, de uma composição do autor dos Atos dos Apóstolos (Lucas) que reproduz, em parte, a pregação que a primitiva comunidade cristã fazia sobre Jesus.
Este discurso de Pedro é, aliás, muito semelhante a outros discursos que aparecem no livro dos Atos dos Apóstolos. Em qualquer um deles, aparece sempre um núcleo central que procede do kerigma primitivo e o resume: apresentação breve da atividade de Jesus, anúncio da sua morte e ressurreição e a salvação que daí resulta em favor dos homens. Mesmo que o texto não reproduza exatamente a pregação de Pedro no dia do Pentecostes, reproduz certamente a fórmula mais ou menos consagrada do kerigma primitivo e a catequese que a comunidade cristã primitiva costumava apresentar sobre Jesus. Há até quem veja neste “anúncio” um texto que era aprendido de cor por todos os catecúmenos durante a sua preparação para o batismo.