Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 8 / Abril 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 12 / Abril / 2026

Domingo na Oitava de Páscoa - Ano A

Domingo da Misericórdia

1ª Leitura:  Atos dos Apóstolos (At 2: 42-47)

O livro dos “Atos dos Apóstolos” constitui a segunda parte da obra de Lucas. Depois de ter apresentado, na primeira parte (o “Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas”), “o tempo de Jesus”, Lucas completa a sua obra apresentando “o tempo da Igreja”: é o “tempo” em que a proposta de salvação de Deus é levada ao encontro do mundo pela comunidade de Jesus (a “Igreja”), animada e conduzida pelo Espírito Santo.

Podemos dividir o livro dos Atos dos Apóstolos em três partes. Na primeira (cf. At 1,12-6,7), Lucas apresenta-nos a Igreja de Jerusalém, nascida de Jesus e do testemunho que os seus discípulos deram sobre Ele logo após a sua morte e ressurreição. Na segunda (cf. At 6,8-12,25), Lucas descreve a expansão da Igreja de Jesus fora de Jerusalém, nomeadamente na Samaria, em Damasco, na faixa costeira palestina e em Antioquia. Na terceira (cf. At 13,1-28,31), Lucas conta-nos as viagens missionárias de Paulo, o seu esforço em levar a Boa Nova de Jesus ao mundo greco-romano, e a chegada de Paulo a Roma, o coração do Império. No entanto, a preocupação de Lucas, ao escrever-nos estas páginas, não é fazer-nos conhecer a “história” da Igreja dos primeiros anos, mas sim apresentar-nos as grandes coordenadas teológicas da missão dos discípulos de Jesus. Essas coordenadas devem ser assumidas e concretizadas pelos discípulos de todos os tempos e lugares.

O texto que a liturgia deste segundo domingo do tempo pascal nos propõe como primeira leitura, pertence à primeira parte do livro dos Atos. Nela Lucas expõe materiais dispersos (histórias, discursos, reflexões, gestos interpelantes, ações de Deus, orações) que dão conta de momentos significativos da Igreja de Jerusalém… Mas, a certa altura intercala na narrativa três “sumários” (cf. At 2,42-47; 4,32-25; 5,12-16) com informações gerais sobre a comunidade e a forma como ela vive o seu compromisso cristão. Esses “sumários” são uma espécie de “fotos” que nos permitem, com um simples olhar, “contemplar” a “comunidade ideal”, a comunidade que os crentes de todas as épocas devem ter como referência. O primeiro desses sumários – o que nos é exposto pela primeira leitura deste domingo – é dedicado ao tema da unidade e ao impacto que o estilo cristão de vida provocou no povo da cidade.

Naturalmente, este sumário não será um retrato histórico rigoroso da comunidade cristã de Jerusalém, no início da década de 30 (embora possa ter algumas bases históricas). Quando Lucas escreve este relato (no final da década de 80 do primeiro século), arrefeceu já o entusiasmo inicial dos cristãos: Jesus nunca mais veio para instaurar definitivamente o “Reino de Deus” e posicionam-se no horizonte próximo as primeiras grandes perseguições… Há algum desleixo, falta de entusiasmo, monotonia, divisão e confusão (até porque começam a aparecer falsos mestres, com doutrinas estranhas e pouco cristãs). Neste contexto, Lucas recorda o essencial da experiência cristã e traça o quadro daquilo que a comunidade deve ser.

2ª Leitura:  Primeira Carta de S. Pedro  (1Pd 1: 3-9)

A primeira Carta de Pedro é uma carta dirigida aos cristãos de cinco províncias romanas da Ásia Menor (a carta cita explicitamente a Bitínia, o Ponto, a Galácia, a Ásia e a Capadócia – cf. 1 Pe 1,1). O seu autor apresenta-se com o nome do apóstolo Pedro; no entanto, a análise literária e teológica não confirma que o apóstolo Pedro seja o autor deste texto… Em termos literários, a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria a maneira de escrever de um pescador pouco instruído, como era o caso de Pedro; em termos teológicos, a “catequese” apresentada parece situar-nos numa época bem posterior à de Pedro, quando a reflexão cristã já tinha conhecido uma significativa evolução. A tudo isto devemos acrescentar um outro dado significativo: o “ambiente” descrito na carta corresponde, claramente, à situação das comunidades cristãs na fase final do séc. I. Ora, se Pedro morreu em Roma durante a perseguição de Nero (por volta do ano 67), não pode ser o autor deste escrito. O autor da carta será, portanto, um cristão anônimo culto – provavelmente um responsável de alguma comunidade – e que conhece profundamente a situação das comunidades cristãs da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80), provavelmente a partir de uma comunidade cristã não identificada da Ásia Menor.

Os destinatários desta carta são as comunidades cristãs que vivem em zonas rurais da Ásia Menor. A maioria dos membros dessas comunidades são camponeses pobres, que cultivam as propriedades da gente rica. Também há, nestas comunidades, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. Trata-se, em qualquer caso, de gente que vive no meio rural, economicamente débil, vulnerável à hostilidade que o Império começa a manifestar para com o cristianismo.

O autor da carta conhece as provações que estes cristãos sofrem todos os dias. Exorta-os, no entanto, a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.

A segunda leitura que a liturgia deste domingo nos propõe apresenta-nos os primeiros versículos da carta. Trata-se de uma espécie de prólogo teológico-cristocêntrico onde se formulam os temas principais que irão ser desenvolvidos ao longo da carta.

Evangelho: segundo João (Jo 20: 1-9)

Jesus foi crucificado na manhã de uma sexta-feira – dia da “preparação” da Páscoa – e morreu pelas três horas da tarde desse dia. Já depois de morto, um soldado trespassou-lhe o coração com uma lança; e do coração aberto de Jesus saiu sangue e água (cf. Jo 19,31-37). O evangelista João vê no sangue que sai do lado aberto de Jesus o sinal do seu amor dado até ao extremo (cf. Jo 13,1): do amor do pastor que dá a vida pelas suas ovelhas (cf. Jo 10,11), do amor do amigo que dá a vida pelos seus amigos (cf. Jo 15,13); e vê na água que sai do coração trespassado de Jesus o sinal do Espírito (cf. Jo 3,5), desse Espírito que Jesus “entregou” aos seus e que é fonte de Vida nova. Da água e do sangue, do batismo e da eucaristia, nascerá a nova comunidade, a comunidade da Nova Aliança. Contudo, os discípulos que tinham subido com Jesus a Jerusalém e que seriam o embrião dessa comunidade da Nova Aliança, desapareceram sem deixar rasto. Estão escondidos, algures na cidade de Jerusalém, paralisados pelo medo. O projeto de Jesus falhou?

No final da tarde dessa sexta-feira, o corpo morto de Jesus foi sepultado às pressas num túmulo novo, situado num horto ao lado do lugar onde se tinha dado a crucificação (cf. Jo 19,38-42). Depois veio o sábado, o último dia da semana, o dia da celebração da Páscoa judaica. Durante todo aquele sábado o túmulo de Jesus continuou cerrado.

A partir daqui a narração de João muda de tempo e de registo. Chegamos ao “primeiro dia da semana”. É o primeiro dia de um tempo novo, o tempo da humanidade nova, nascida da ação criadora e vivificadora de Jesus. “No primeiro dia da semana”, Maria Madalena, a mulher que representa a nova comunidade, vai ao túmulo e vem de lá confusa e desorientada porque o túmulo está vazio (cf. Jo 20,1-2). Logo depois, ainda “no primeiro dia da semana”, Pedro e outro discípulo correm ao túmulo e constatam aquilo que Maria Madalena tinha afirmado: Jesus já não está encerrado no domínio da morte (cf. Jo 20,3-10). A comunidade de Jesus começa a despertar do seu letargo; começa a viver um tempo novo. “Ao entardecer do primeiro dia da semana” (“ou seja, ao concluir-se este primeiro dia da nova criação) a comunidade dos discípulos faz a experiência do encontro com Jesus, vivo e ressuscitado (cf. Jo 20,19-29).