Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 20 / Maio 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 24 / Maio / 2026

Domingo de Pentecostes - Ano A

1ª Leitura:  Atos dos Apóstolos (At 2: 1-11)

O Cenáculo, em Jerusalém, era uma ampla sala localizada no andar superior de uma casa judaica, provavelmente pertencente a uma família de certa condição financeira. Na cultura do século I, esses espaços eram usados para refeições importantes, encontros familiares, oração e reuniões reservadas. Diferentemente do Templo, o Cenáculo tinha um ambiente doméstico e íntimo, o que ajuda a compreender por que os discípulos estavam ali reunidos após a morte de Jesus: era um local discreto, seguro e acolhedor em um período de medo e tensão.
Os acontecimentos ocorreram durante a festa judaica de Shavuot, celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Nessa época, Jerusalém ficava lotada de peregrinos vindos de diversas regiões do mundo conhecido, transformando-se em uma cidade multicultural e multilíngue. Pessoas de áreas que hoje corresponderiam ao Iraque, Irã, Egito, Turquia, Grécia e Itália circulavam pelas ruas da cidade. O aramaico era a língua mais falada na Judeia, mas o hebraico e o grego também eram muito presentes, além de diversos idiomas regionais trazidos pelos peregrinos.
Politicamente, Jerusalém vivia sob o domínio do Império Romano e enfrentava forte tensão social e religiosa. Poucas semanas antes, Jesus havia sido executado, e seus seguidores ainda viviam sob impacto emocional e receio das autoridades. O Cenáculo, portanto, representa também um espaço de recolhimento, convivência e reorganização de um grupo fragilizado.
Tradicionalmente associado ao Monte Sião, o Cenáculo estava inserido em uma Jerusalém cheia de movimento, comércio, debates religiosos e grande circulação de pessoas por causa da festa. Nesse contexto, os acontecimentos ali vividos rapidamente ganharam repercussão entre as multidões presentes na cidade.

2ª Leitura:  Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios  (1Cor 12: 3b-7, 12-13)

A comunidade cristã de Corinto era viva e fervorosa, mas não era uma comunidade exemplar no que diz respeito à vivência do amor e da fraternidade: os partidos, as divisões, as contendas e rivalidades perturbavam a comunhão e constituíam um contra-testemunho. As questões à volta dos "carismas" (dons especiais concedidos pelo Espírito a determinadas pessoas ou grupos para proveito de todos) faziam-se sentir com especial acuidade: os detentores desses dons carismáticos consideravam-se os "escolhidos" de Deus, apresentavam-se como "iluminados" e assumiam com frequência atitudes de autoritarismo e de prepotência que não favorecia a fraternidade e a liberdade; por outro lado, os que não tinham sido dotados destes dons eram desprezados e desclassificados, considerados quase como "cristãos de segunda", sem vez nem voz na comunidade.
Paulo não pode ignorar esta situação. Na Primeira Carta aos Coríntios, ele corrige, admoesta, dá conselhos, mostra a incoerência destes comportamentos, incompatíveis com o Evangelho. No texto que nos é proposto, Paulo aborda a questão dos "carismas".

Evangelho: segundo João (Jo 20: 19-23)

O Evangelho de Evangelho de João 20,19-23 acontece em Jerusalém, poucos dias após a execução de Jesus, provavelmente no mesmo Cenáculo tradicionalmente associado ao Monte Sião. O ambiente descrito reflete uma cidade ainda sob forte tensão política e social. Jerusalém estava sob domínio do Império Romano, que mantinha vigilância constante especialmente durante as grandes festas judaicas, quando a cidade recebia milhares de peregrinos e o risco de revoltas aumentava.
O fato de os discípulos estarem reunidos “com as portas fechadas” revela o clima de insegurança existente naquele momento. Após a crucificação pública de Jesus, qualquer grupo ligado a ele poderia ser visto com suspeita tanto pelas autoridades romanas quanto pelas lideranças religiosas locais. Reuniões privadas em casas eram comuns na cultura judaica urbana do século I, especialmente em espaços superiores das residências, usados para refeições, encontros familiares e reuniões reservadas.
Geograficamente, o Cenáculo estava localizado em uma área residencial próxima às partes mais movimentadas de Jerusalém, relativamente perto do Templo e das rotas de peregrinação. Durante o período da Páscoa judaica e das semanas seguintes, a cidade permanecia cheia de visitantes vindos de várias regiões do Mediterrâneo e do Oriente Médio. Havia grande diversidade cultural e linguística nas ruas, com presença de judeus da diáspora, comerciantes, soldados romanos e peregrinos estrangeiros.
O gesto de Jesus soprar sobre os discípulos também possui raízes culturais antigas. No mundo judaico e semita, o sopro era frequentemente associado à vida e ao princípio vital, uma imagem presente em diversas tradições do Oriente Próximo antigo. O ato ocorre dentro de um ambiente fechado e íntimo, contrastando com o caráter público e coletivo do Pentecostes narrado posteriormente em Atos dos Apóstolos, quando Jerusalém já estava novamente tomada por multidões por ocasião da festa de Shavuot.