Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 15 / Abril 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 19 / Abril / 2026

3° Domingo de Páscoa - Ano A

1ª Leitura:  Atos dos Apóstolos (At 2: 14, 22-33)

O texto que a liturgia deste dia nos propõe como primeira leitura nos situa em Jerusalém, na manhã do dia do Pentecostes.
Após a Ascensão, os discípulos tinham estado no Cenáculo, à espera que se cumprisse a promessa que Jesus lhes tinha feito: “ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo”. Ora, de acordo com o relato de Lucas, essa promessa cumpriu-se no dia do Pentecostes [pentēkostḗ (πεντηκοστή)] ou "quinquagésimo 'dia'), quando o Espírito Santo desceu sobre a comunidade reunida no Cenáculo. Nesse dia, transformados e fortalecidos pelo Espírito, os discípulos abandonaram a segurança das paredes do Cenáculo e assumiram, diante dos habitantes de Jerusalém, a missão de serem testemunhas de Jesus. De acordo com o autor do livro dos Atos dos Apóstolos, foi Pedro que, em nome da comunidade dos discípulos, tomou a palavra para “anunciar as maravilhas de Deus” e para oferecer a todos os presentes um primeiro anúncio sobre Jesus.
A festa judaica do Pentecostes (em hebraico “Shavu’ot”) que os judeus celebravam por esses dias era também designada por “festa das semanas” e “festa das primícias”. Ocorria cinquenta dias após a Páscoa e era, antes de mais, uma festa agrícola: terminada a colheita dos cereais, os agricultores dirigiam-se ao Templo, ao som de música de flautas, para entregar a Deus os primeiros frutos da colheita (“bikurim”). Eram acolhidos com cânticos de boas vindas, entravam no templo e entregavam nas mãos dos sacerdotes os cestos com os frutos que tinham trazido. Mais tarde, contudo, a tradição rabínica ligou esta festa à celebração da “aliança” e ao dom da Lei, por Deus, no Sinai; e, no séc. I, esta dimensão tinha um lugar importante na celebração do Pentecostes.
As palavras que, segundo Lucas, Pedro naquele dia dirigiu à multidão reunida em Jerusalém para celebrar a festa judaica do Pentecostes serão rigorosamente históricas? Não. Trata-se, certamente, de uma composição do autor dos Atos dos Apóstolos (Lucas) que reproduz, em parte, a pregação que a primitiva comunidade cristã fazia sobre Jesus.

Este discurso de Pedro é, aliás, muito semelhante a outros discursos que aparecem no livro dos Atos dos Apóstolos. Em qualquer um deles, aparece sempre um núcleo central que procede do kerigma primitivo e o resume: apresentação breve da atividade de Jesus, anúncio da sua morte e ressurreição e a salvação que daí resulta em favor dos homens. Mesmo que o texto não reproduza exatamente a pregação de Pedro no dia do Pentecostes, reproduz certamente a fórmula mais ou menos consagrada do kerigma primitivo e a catequese que a comunidade cristã primitiva costumava apresentar sobre Jesus. Há até quem veja neste “anúncio” um texto que era aprendido de cor por todos os catecúmenos durante a sua preparação para o batismo.

2ª Leitura:  Primeira Carta de S. Pedro  (1Pd 1: 17-21)

A primeira Carta de Pedro nos oferece um conjunto de indicações que, apriori, poderiam deixar perfeitamente definida a questão do seu autor e dos seus destinatários. O autor apresenta-se como “Pedro, Apóstolo de Jesus Cristo”, “presbítero”, “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há de manifestar”. Os destinatários seriam os “eleitos” de Deus que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia”. A Carta seria escrita “desde Babilônia” (designativo frequentemente usado pelos primeiros cristãos para falar de Roma), onde o autor está acompanhado por Marcos.
No entanto, parece bastante improvável que Pedro, o pescador do Mar da Galileia que Jesus chamou para ser “pescador” de homens, tenha sido o autor desta carta. Antes de mais, por questões de ordem literária: a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria o estilo de um pescador galileu pouco instruído, como era o caso de Pedro. Depois, porque a situação das comunidades cristãs referidas na carta parece situar-nos dentro dos anos oitenta, numa época em que se sentia claramente a hostilidade do Império contra os cristãos e começavam a aparecer no horizonte as grandes perseguições do final do séc. I. Por essa altura, Pedro há muito teria morrido (o Apóstolo foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por volta do ano 66-67).
Sendo assim, o mais natural é que o autor da primeira Carta dita “de Pedro” seja um cristão culto cujo nome ignoramos – provavelmente um responsável de uma comunidade cristã –, empenhado em fortalecer o compromisso cristão de algumas comunidades instaladas nas zonas rurais da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80).
Os destinatários desta carta são, maioritariamente, camponeses pobres, que cultivam as propriedades da gente rica. Também há, entre eles, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. Trata-se, em qualquer caso, de gente do meio rural, economicamente débil, vulnerável à hostilidade que o Império começa a manifestar para com o cristianismo.
Conhecendo bem as provações que estes cristãos sofrem, o autor da Carta os exorta a se manterem fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e os exorta a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.

Evangelho: segundo Lucas (Lc 24: 13-35)

A narração de uma aparição de Jesus ressuscitado a dois discípulos que iam a caminho de uma povoação chamada Emaús, no próprio dia de Páscoa, é exclusiva de Lucas: nenhum outro evangelista a refere. Discute-se, no entanto, se se trata de uma criação de Lucas, ou de um relato que Lucas recebeu da tradição e que o evangelista terá trabalhado e adaptado. O mais provável é que Lucas utilize uma tradição prévia, que ele retoca e completa.
A menção de um lugar chamado Emaús (lugar de destino dos dois discípulos) levanta diversas interrogações… Que lugar é esse? O nome não identifica um lugar conhecido na geografia do mundo palestino. A indicação da distância de Jerusalém a Emaús poderia constituir um fator adicional para ajudar na identificação da referida localidade; contudo, esse dado também não é conclusivo, uma vez que os mais importantes códices antigos situam a povoação a “sessenta estádios” de Jerusalém (o equivalente a cerca de onze quilômetros), mas outros falam de “cento e sessenta estádios” (o que equivaleria a cerca de trinta quilômetros). Os partidários da “maior distância” (cento e sessenta estádios) falam de Amwas-Nicópolis (uma localidade situada a cerca de trinta quilômetros de Jerusalém) como o local da Emaús evangélica; mas os partidários da “menor distância” preferem falar da atual El-Qubeibeh (uma localidade palestina que conserva a memória do acontecimento), ou então de Abu Gosh, uma localidade situada a cerca de dez quilômetros de Jerusalém.
Os comentadores destacam frequentemente a intenção teológica de Lucas ao dar-nos este relato. Que é que isto significa? Significa que a narrativa lucana não é uma reportagem factual de uma viagem geográfica, mas é uma catequese sobre Jesus. O que interessa a Lucas não é escrever um relato lógico e coerente (se o evangelista estivesse preocupado com a lógica e com a coerência, teria mais cuidado com a situação geográfica de Emaús; e explicaria melhor algumas incongruências do texto, nomeadamente porque é que aqueles dois discípulos partiram para Emaús na manhã de Páscoa sem investigar os rumores de que o túmulo estava vazio e Jesus tinha ressuscitado). O que interessa ao autor é explicar aos cristãos para quem escreve – em meados da década de oitenta do primeiro século – como é que podem descobrir que Jesus está vivo e fazer uma verdadeira experiência de encontro com Jesus ressuscitado. Trata-se, provavelmente, de uma página de catequese, mais do que a descrição fiel de acontecimentos concretos.