Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 18 / Março 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 22 / Março / 2026

5° Domingo do Tempo da Quaresma, Ano A

1ª Leitura:  Profecia de Ezequiel (Ez 37: 12-14)

Em 598 a.C. Nabucodonosor, rei da Babilônia, irritado pelas tentativas de Joaquim, rei de Judá, para se libertar do domínio babilônico, pôs cerco à cidade de Jerusalém. O rei Joaquim parece ter morrido durante o cerco da cidade (na versão de 2Cr 36, contudo, Joaquim foi aprisionado e levado prisioneiro para a Babilônia). Sucedeu-lhe, no trono de Judá, o seu filho Joiaquin, que reinou apenas três meses, antes de cair nas mãos dos babilônios. O rei, a classe dirigente e todos aqueles que tinham alguma influência em Jerusalém foram deportados para a Babilônia (597 a.C.).

Nabucodonosor instalou, então, no trono de Judá um tal Sedecias. Durante algum tempo, Judá manteve-se tranquilo, pagando pontualmente os tributos devidos aos babilônios; mas, ao fim de algum tempo, aproveitando a conjuntura política favorável, Sedecias aliou-se com os egípcios e deixou de pagar o tributo. Nabucodonosor enviou imediatamente um exército que cercou novamente Jerusalém. Apesar do socorro de um exército egípcio, Jerusalém teve de se render aos babilônios (586 a.C.). Sedecias tentou fugir da cidade; mas foi feito prisioneiro, viu os seus filhos serem assassinados e ele próprio foi levado prisioneiro para a Babilônia, onde acabou os seus dias.

Ezequiel, chamado “o profeta da esperança”, deve ser colocado neste cenário. Pertencendo a uma família com alguma influência em Jerusalém, fez parte do primeiro grupo de exilados de Judá, levados para a Babilônia em 597 a.C. (no reinado de Joiaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém, pela primeira vez). Será na Babilônia que Ezequiel irá exercer a sua missão profética.

A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (altura em que sentiu o chamamento de Deus) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados é encaminhada para a Babilônia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar em breve a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e infidelidades contra Javé) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilônia.

A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C., até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, sem Templo, sem sacerdócio e sem culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus libertador e salvador não os abandonou. As palavras que, nesta fase, Ezequiel dirige aos seus concidadãos são palavras de ânimo e de esperança.

O texto que nos é proposto como primeira leitura pertence à segunda fase do ministério profético de Ezequiel. Faz parte da famosa de um conjunto de “oráculos de salvação” que inclui a famosa “visão dos ossos calcinados”. Nessa visão Ezequiel fala de uma planície cheia de ossos calcinados e sem vida; mas, esses ossos, vivificados pelo Espírito do Senhor, são revestidos de pele, de músculos e ganham nova vida. Nesta parábola, esses ossos calcinados representam o Povo de Deus, que jaz abandonado, sem esperança e sem futuro no meio da planície mesopotâmica.

2ª Leitura:  Carta de S. Paulo aos Romanos  (Rm 8: 8-11)

Em meados do séc. I, Roma era a maior cidade do mundo, com aproximadamente um milhão de habitantes. Neste número estavam incluídos cerca de 50.000 judeus.

Provavelmente, o cristianismo chegou a Roma levado por judeus palestinos convertidos ao Evangelho de Jesus. Uma antiga tradição diz que foi Pedro quem anunciou o Evangelho em Roma, por volta do ano 42, e que da sua pregação resultou uma florescente comunidade cristã. No entanto, não temos evidências que comprovem esta tradição.

Paulo escreveu a sua Carta aos Romanos por volta do ano 57 ou 58. Estava, por essa altura, prestes a terminar a sua terceira viagem missionária. Sentia que tinha concluído a sua missão no Mediterrâneo oriental, pois as igrejas que fundara e acompanhara nessas paragens estavam organizadas e já podiam caminhar por si próprias. Depois disso, Paulo tinha a intenção de anunciar o Evangelho no ocidente: queria passar por Roma, deter-se algum tempo nessa cidade e viajar depois para a Espanha para aí dar testemunho de Jesus.

Ao dirigir-se por carta aos cristãos de Roma, Paulo pretendia estabelecer laços com eles; mas também aproveitou a oportunidade para lhes apresentar os principais problemas que então o preocupavam, entre os quais sobressaía a questão da unidade. Tratava-se de um problema que se sentia um pouco por todo o lado e que também inquietava a jovem comunidade cristã de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre cristãos de origem judaica e cristãos vindos do mundo greco-romano. Com serenidade e lucidez, evitando qualquer polêmica, Paulo expôs aos cristãos de Roma as linhas mestras do Evangelho que anunciava. A Carta aos Romanos é uma espécie de resumo da teologia paulina e, do ponto de vista teológico, o escrito mais completo de Paulo.

Na primeira parte da Carta, Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens, a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção; e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem. Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna.

O nosso texto integra a primeira parte da Carta. Refere-se à “vida nova” daqueles que aderiram a Jesus e vivem “no Espírito”. Todo o capítulo oitavo é dedicado à vida no Espírito. É uma das mais ricas e mais belas páginas da catequese paulina.

Evangelho: segundo João (Jo 11: 1-45)

O Quarto Evangelho, escrito por volta do ano 100, é um belo ponto de chegada da reflexão cristológica feita ao longo do séc. I. Na sua gênese estará, certamente, o testemunho do apóstolo João; mas o livro conserva a reflexão que a comunidade joânica (provavelmente a comunidade cristã de Éfeso) desenvolveu sobre Jesus a partir do testemunho deixado pelo apóstolo.

O livro é de uma grande riqueza e não é fácil definir a sua estrutura. Mas diversos estudiosos do Quarto Evangelho fazem questão de dividi-lo em duas partes: o “Livro dos Sinais” e o “Livro da Hora”. No “Livro dos Sinais” nos são apresentadas diversas “catequeses” – recorrendo a “sinais” como a água, o pão, a luz, o pastor, a vida que vence a morte – que mostram como o Messias, agindo de acordo com o projeto de Deus, faz nascer um Homem Novo, um Homem que vive segundo Deus. No “livro da Hora”, o Messias encaminha-se para a cruz e, oferece a própria vida por amor. Com a sua entrega, Ele mostra aos homens como devem viver e como devem amar. Os que aprendem com Jesus a lição do amor e se dispõem a viver como Ele viveu, formarão a nova comunidade, a Igreja de Jesus, vivificada pela água (batismo) e pelo sangue (eucaristia) que brotam do coração de Cristo.

A narrativa da ressurreição de Lázaro integra o “Livro dos Sinais”. É a quinta “catequese” que esse “livro” nos oferece. Trata-se de uma narração única, que não tem paralelo nos outros três Evangelhos. Propõe Jesus como aquele que é capaz de dar aos que a Ele aderem uma vida que supera a morte.

A cena nos situa em Betânia, uma aldeia situada no lado oriental do monte das Oliveiras, a cerca de 2.700 metros de Jerusalém. Atualmente a localidade tem o nome de El-Azariyeh, nome derivado de Lázaro. Quem a visita pode descer, ainda hoje, os vinte e quatro degraus que conduzem a um espaço onde a tradição situa o túmulo de Lázaro.

O autor da catequese nos coloca diante de um episódio – um triste episódio – familiar: a morte de um homem. A família em questão, constituída por três pessoas (Marta, Maria e Lázaro), parece conhecida de Jesus: em Jo 11,5 diz-se que Jesus “era amigo” de Marta, de sua irmã (Maria) e de Lázaro. A visita de Jesus a casa desta família é, aliás, mencionada em Lc 10,38-42; e João tem o cuidado de observar que a Maria, aqui referenciada, é a mesma que tinha ungido o Senhor com perfume e lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.