Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 22 / Abril 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 26 / Abril / 2026

4° Domingo de Páscoa - Ano A

1ª Leitura:  Atos dos Apóstolos (At 2: 14a, 36-41)

De acordo com o autor do Quarto Evangelho, Jesus teria prometido repetidamente aos discípulos, naquela inolvidável ceia de despedida que antecedeu a sua prisão, condenação à morte e execução, que ia enviar-lhes o Espírito Santo. E Lucas põe Jesus ressuscitado, no momento em que se despede dos discípulos, antes de ir ao encontro do Pai, a dizer-lhes: “ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo”. Para o autor dos Atos dos Apóstolos, essa promessa de Jesus cumpre-se precisamente na manhã do dia de Pentecostes.
A festa judaica do Pentecostes (em hebraico “Shavu’ot”) era também designada por “festa das semanas” e “festa das primícias”. Ocorria cinquenta dias após a Páscoa e era, antes de mais, uma festa agrícola: terminada a colheita dos cereais, os agricultores dirigiam-se ao Templo, ao som de música de flautas, para entregar a Deus os primeiros frutos da colheita (“bikurim”). Eram acolhidos com cânticos de boas vindas, entravam no templo e entregavam nas mãos dos sacerdotes os cestos com os frutos que tinham trazido. Mais tarde, contudo, a tradição rabínica ligou esta festa à celebração da “aliança” e ao dom da Lei, por Deus, no Sinai; e, no séc. I, esta dimensão tinha um lugar importante na celebração do Pentecostes.Ora, no dia em que os judeus celebravam a festa judaica do Pentecostes, os discípulos de Jesus “encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar” quando, “viram aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo”. Depois, transformados e fortalecidos pelo Espírito, os discípulos abandonaram a segurança dos muros do Cenáculo e assumiram, diante dos habitantes de Jerusalém, a missão de serem testemunhas de Jesus. De acordo com o autor do livro dos Atos dos Apóstolos, foi Pedro que, em nome da comunidade dos discípulos, tomou a palavra para “anunciar as maravilhas de Deus” e para oferecer a todos os presentes um primeiro anúncio sobre Jesus.
O texto que a liturgia do quarto domingo pascal nos propõe como primeira leitura apresenta-nos a última frase do discurso de Pedro e, logo de seguida, a reação da multidão a esse discurso.

2ª Leitura:  Primeira Carta de S. Pedro  (1Pd 2: 20b-25)

O autor da designada “Primeira Carta de Pedro” apresenta-se como “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo”, “presbítero”, “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há de manifestar”. O apóstolo Pedro conhecido da tradição cristã é, naturalmente, Simão Pedro, o pescador do Mar da Galileia, irmão de André, que habitava na cidade de Cafarnaum e a quem Jesus certo dia, chamou para ser “pescador de homens”.
No entanto, parece bastante improvável que Pedro, o pescador do Mar da Galileia, tenha sido o autor desta carta. Antes de mais, por questões de ordem literária: a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria o estilo de um pescador galileu pouco instruído, como seria o caso de Pedro. Depois, porque a situação das comunidades cristãs referidas na carta parece situar-nos dentro dos anos oitenta, numa época em que se sentia claramente a hostilidade do Império contra os cristãos e começavam a perspetivar-se no horizonte as grandes perseguições do final do séc. I. Por essa altura, Pedro há muito teria morrido (segundo a tradição cristã, o apóstolo foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por volta do ano 66-67).
A partir destes dados, o mais provável é que o autor da referida carta seja um cristão cujo nome ignoramos – provavelmente um responsável de uma comunidade cristã – empenhado em fortalecer o compromisso dos cristãos que viviam em algumas zonas rurais da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80).Os destinatários da missiva seriam ainda, de acordo com o texto, os “eleitos” de Deus que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia” (1Pe 1,1b). Trata-se de comunidades cristãs de âmbito rural, constituídas maioritariamente por camponeses pobres, que cultivam as propriedades de gente rica. Também há, entre eles, pequenos proprietários que vivem em aldeias, fora dos grandes centros urbanos. São pessoas economicamente débeis, vulneráveis à hostilidade que o império romano começa a manifestar em relação ao cristianismo.Conhecendo bem as provações que estes cristãos sofrem, o autor da Carta exorta-os a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.
O texto que nos é proposto integra uma perícope em que o autor apresenta aos destinatários da carta um conjunto de conselhos práticos sobre a conduta que os cristãos devem assumir em várias situações da vida. Mais especificamente, o nosso texto reflete sobre os deveres dos servos face aos seus senhores.

Evangelho: segundo João (Jo 10: 1-10)

O capítulo 10 do 4º Evangelho é dedicado à catequese do “Bom Pastor”. O autor utiliza esta imagem para propor uma catequese sobre a missão de Jesus: a obra do “Messias” consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a Vida em plenitude.
A imagem do “Bom Pastor” não foi inventada pelo autor do Quarto Evangelho. Literariamente falando, este discurso simbólico está construído com materiais provenientes do Antigo Testamento. Em especial, este discurso tem presente o texto de Ez 34, onde se encontra a chave para compreender a metáfora do “pastor” e do “rebanho”. Falando aos exilados da Babilônia, Ezequiel constata que os líderes de Israel foram, ao longo da história, maus “pastores”, que conduziram o Povo por caminhos de sofrimento, de injustiça e de morte; mas – diz também Ezequiel – o próprio Deus vai agora assumir a condução do seu Povo; Ele irá colocar à frente do seu “rebanho” um “Bom Pastor” (o “Messias”), que o livrará da escravidão e o conduzirá à Vida. A catequese que o 4º Evangelho nos oferece sobre o “Bom Pastor” sugere que a promessa de Deus – veiculada por Ezequiel – se cumpre em Jesus.
De acordo com o Evangelho de João, Jesus teria pronunciado o “discurso do Bom Pastor” em Jerusalém, em contexto da “festa da Dedicação do Templo”. Esta festa (chamada, em hebraico, “Hanûkkah”) celebra a purificação do Templo de Jerusalém (164 a.C.), por Judas Macabeu, depois de o rei selêucida Antíoco IV Epifânio o ter profanado (167 a.C.), construindo um altar em honra de Zeus dentro do espaço sagrado. É a festa da Luz. O símbolo por excelência dessa festa é um candelabro de oito braços (“hanûkkiyyah”). Os braços desse candelabro vão sendo progressivamente acesos, um a um, ao longo dos oito dias em que se celebra a festa. Jesus tinha, pouco antes, curado um cego de nascença, assumindo-se como “a Luz” que veio para iluminar as trevas do mundo.
Apesar do ambiente festivo, a relação entre Jesus e os líderes judaicos é de grande tensão. Depois de ver a pressão que esses líderes colocaram sobre um cego de nascença para que ele não abraçasse a luz, Jesus denuncia a forma como eles tratam a comunidade: estão apenas interessados em proteger os seus interesses pessoais e usam o Povo em benefício próprio; são, pois, “ladrões e salteadores”, que tomaram de assalto o rebanho que lhes foi confiado e roubam ao Povo a oportunidade de encontrar Vida.