Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 25 / Fevereiro 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 1 / Março / 2026

2° Domingo do Tempo da Quaresma, Ano A

1ª Leitura:  Livro do Gênesis (Gn 12: 1-4a)

A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se costuma dar o nome genérico de “tradições patriarcais”. Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem carácter de documento histórico. Esses capítulos reúnem materiais bastante diversos: “mitos de origem” (relatos que descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca de um determinado clã), “lendas cultuais” (narrativas populares cheias de elementos fantásticos, que descreviam como uma figura divina tinha aparecido num determinado lugar ao patriarca de um clã e lhe tinha deixado uma mensagem, dando origem a um culto), indicações mais ou menos concretas sobre o dia a dia dos clãs nômades que circularam pela Palestina durante o segundo milênio (nascimentos e mortes, casamentos, conflitos familiares, lutas pela água ou pelas pastagens contra os pastores de outros clãs ou contra os povos sedentários das regiões que atravessavam) e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.

Por detrás do quadro teológico e catequético que nos é proposto nesses capítulos estão as migrações históricas de diversos povos nômades, antepassados do povo bíblico, nos inícios do segundo milênio a.C. Por essa época, a história regista um forte movimento migratório de povos amorreus entre a Mesopotâmia e o Egito, passando pela terra de Canaan. São povos que não conseguiram fixar-se na Mesopotâmia – ou que tiveram de a abandonar por causa de convulsões políticas registadas nessa zona no início do segundo milénio – e que continuaram o seu caminho migratório ao longo do Crescente Fértil, à procura de uma terra onde “plantar” definitivamente a sua tenda, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da vida nômade. Os nossos patriarcas bíblicos fazem parte dessa onda migratória.

Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac, Jacob e Lot – transportavam consigo os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. “Uma terra e uma descendência numerosa”: tal era o sonho que cada uma destas tribos longamente contemplava enquanto migravam de terra em terra, ao sabor das vicissitudes do dia a dia, da abundância ou da carência de pastos e de fontes de água. O deus aceito pelo clã seria, para cada um destes grupos, a garantia da concretização desses sonhos.

Abraão, o protagonista da nossa primeira leitura deste domingo, viveu por volta de 1850 a.C.

2ª Leitura:  Carta de S. Paulo aos Romanos  (2Tm 1: 8b-10)

De acordo com a narrativa dos Atos dos Apóstolos, Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaônia (região histórica no interior da antiga Ásia Menor, na atual Turquia), no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser ainda bastante jovem, nessa altura. No entanto, Paulo não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedônia e da Grécia. Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1Tm 5,23 Paulo aconselha: “não continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições”), Timóteo tornou-se um companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter problemas com os judeus, Paulo o fêz circuncidar; e, numa data desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãosque o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho de Jesus.

A atividade de Timóteo está bastante ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão, colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo”; e faz referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses, na 2 Coríntios, na Carta aos Romanos, na Carta aos Filipenses, na Carta aos Colossenses e na Carta a Filémon. Encarregou-o, também, de missões particulares entre os Tessalonicenses e entre os Coríntios.

Em relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, uma questão em aberto: a maioria dos comentadores considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II). Talvez alguns dados da carta – de natureza bastante pessoal – venham de Paulo; mas dificilmente este escrito pode ser atribuído a Paulo na sua totalidade.

Timóteo é, por esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham.

Evangelho: segundo Mateus (Mt 17: 1-9)

O episódio da transfiguração de Jesus situa-se praticamente no final da “etapa da Galileia”. Durante um tempo relativamente longo (talvez perto de três anos), Jesus tinha andado pela Galileia, anunciando – com palavras e com gestos poderosos – a chegada do Reino de Deus. Ao longo dessa “etapa” Jesus esteve sempre acompanhado por um grupo de discípulos: gente que tinha escutado o chamamento de Jesus e que tinha decidido segui-l’O. Esses discípulos, depois de tudo o que tinham visto e escutado enquanto acompanhavam Jesus pelas vilas e aldeias da Galileia, estavam convencidos que Ele era realmente o Messias que Israel esperava.

No entanto, alguns dias antes da cena da transfiguração, os discípulos tinham ficado perplexos pela maneira como Jesus lhes descreveu o futuro próximo, a nova “etapa” que os esperava. O Mestre disse-lhes que “tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar”. Os discípulos ficaram estupefactos: o caminho que Jesus se propunha seguir passava pelo sofrimento e pela morte (Ele tinha também falado em ressurreição; mas, por essa altura, eles não sabiam bem o que isso queria dizer)? Era esse o horizonte de Jesus? Não era com isso que contavam quando se dispuseram a andar com Ele. Pedro expressou a sua oposição a tudo isso num gesto radical: tomando Jesus de parte, “começou a repreendê-l’O, dizendo: ‘Deus te livre, Senhor! Isso nunca te há de acontecer!’”. Para piorar as coisas, Jesus pediu-lhes, logo a seguir, que renunciassem a si mesmos, tomassem a cruz e o seguissem no caminho do dom da vida até à morte.

É natural que tudo isto afetasse os discípulos. Poderemos mesmo falar de uma “crise” que deixou o grupo num estado de absoluto desânimo. Jesus achou, face a este estado de coisas, que tinha chegado a hora de lhes desvelar o sentido do caminho que se propunha seguir. Chamou, então, Pedro, Tiago e João – o “núcleo duro” daquele grupo – e convidou-os a subir com Ele a um monte. Nesse dia e nesse monte eles iriam achar algumas respostas para as perguntas que os inquietavam.

O texto não identifica o “monte” para onde Jesus, Pedro, Tiago e João se dirigiram. Contudo, a tradição fala do Monte Tabor, uma montanha com 588 metros de altura, situada no meio da planície de Jezreel, coberta de carvalhos, pinheiros, ciprestes, aroeiras e plantas silvestres. O Tabor tinha sido, nos tempos antigos, um lugar sagrado para os povos cananeus. Nesse monte aqueles três discípulos vão entrever, ainda que por breves instantes, o projeto de Deus.

Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai elaborar um quadro onde coloca todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato exato de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a confirmar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.