Compreender os textos Bíblicos não é tarefa fácil, e se torna praticamente impossível se não levarmos em conta os aspectos histórico-culturais e os costumes da época em que cada leitura se passa. Há muitas mensagens escritas que se apóiam nestes aspectos, além de leis específicas, metáforas temporais, problemas de tradução e até mesmo estilos usados pelos autores de cada livro, e quais elementos (ou mesmo objetivos) queriam enfatizar em seus textos.

CONDIÇÕES HISTÓRICO-CULTURAIS E COSTUMES DA ÉPOCA DAS PASSAGENS BÍBLICAS

LEITURAS DA SEMANA

"PRÓXIMA REUNIÃO: 4 / Fevereiro 8:00pm"

Antes de cada reunião semanal, colocaremos nesta página informações úteis, sobre cada leitura, para nos ajudar nesta "viagem no tempo" e, assim, com o auxílio do Espírito Santo de Deus, entendermos as mensagens com este pano de fundo histórico e, finalmente, podermos transportá-las aos nossos dias e às nossas circunstâncias de hoje.

Ref. Domingo 8 / Fevereiro / 2026

5° Domingo do Tempo Comum, Ano A

1ª Leitura:  Livro do Profeta Isaías (Is 58: 7-10)

Nos capítulos 56 a 66 do livro de Isaías (o “Trito-Isaías”) temos uma coleção de textos, provavelmente de autores diversos, redigidos em Jerusalém na época pós-exílica. Os biblistas designam esta coleção com o nome geral de “Trito-Isaías”. O poema que a liturgia deste quinto domingo comum nos apresenta como primeira leitura pertence a essa coleção.

Em 538 a.C. o rei persa Ciro, depois de conquistar a Babilônia, autorizou os exilados judeus a regressar a Jerusalém. Alguns puseram-se imediatamente a caminho. Chegaram a Jerusalém cheios de entusiasmo; mas rapidamente ficaram desiludidos… A cidade estava destruída; o domínio persa recordava aos retornados que não eram livres. As profecias sobre a reconstrução de Jerusalém – que o Deutero-Isaías tinha oferecido aos exilados quando ainda estavam na Babilônia – não se tinham concretizado. A intervenção definitiva de Deus para restabelecer as glórias passadas e para oferecer ao seu povo um futuro de vida abundante tardava em chegar.

No universo religioso de Jerusalém parece haver, por esta altura, uma forte tensão entre dois “partidos” ligados à vida cultual. De um lado, está o sacerdócio sadoquita (da linha de Sadoc, sacerdote do tempo de Salomão), que incluía sacerdotes recém-retornados do exílio na Babilônia, convencidos de que tinham sido provados e perdoados pelas suas faltas. Mantinham boas relações com o poder persa, estavam decididos a fazer valer os seus direitos e privilégios e pretendiam ser eles a definir as coordenadas do culto oficial. Do outro lado está o sacerdócio levítico, que incluía sacerdotes que se tinham mantido sempre em Jerusalém, presidindo à vida cultual da cidade durante os anos que tinha durado o Exílio. Tinham uma visão mais “democrática”, mais pragmática, menos “oficial” e legalista da fé. Os autores do texto que, neste domingo, nos é proposto como primeira leitura pertencem, provavelmente, a este último grupo.

O capítulo 58 – de onde é tirado o nosso texto – apresenta-se como uma reclamação de Deus contra o Povo. Nessa reclamação, há dois temas: a denúncia de um culto vazio e estéril, que cumpre as leis externas, mas que não sai do coração nem tem a necessária correspondência na vida; e o respeito pela santidade do sábado.

A propósito do culto vazio e sem correspondência na vida aborda-se a questão do jejum (a raiz “jejuar” aparece sete vezes ao longo do capítulo). Como é que Deus vê a questão do jejum, uma das traves-mestras da vivência judaica da fé? Qual é, e como é o jejum que agrada a Deus?

2ª Leitura:  Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios  (1Cor 2: 1-5)

Corinto, a capital da província romana da Acaia, era uma cidade cosmopolita e próspera, de população heterogênea. Na época neotestamentária, devia ter à volta de meio milhão de habitantes, dos quais dois terços eram escravos. Servida por dois portos de mar – um virado para ocidente, outro para oriente – era a cidade onde a cada momento desembarcavam marinheiros chegados de todos os portos do Mediterrâneo, ávidos de prazeres depois de semanas passadas no mar. Os mais diversos cultos religiosos estavam ali representados. Mas a grande referência religiosa de Corinto era Afrodite, a deusa do amor, da beleza, da sexualidade e da fertilidade, em cujo templo se praticava a prostituição sagrada.

Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, depois de ter passado por Tessalónica, Bereia e Atenas. Instalou-se na cidade e começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos há pouco chegado de Roma. Ao sábado Paulo frequentava a sinagoga e aí falava aos judeus sobre Jesus. No entanto, o apóstolo não tardou a entrar em choque com os líderes da comunidade judaica da cidade. Expulso da sinagoga, Paulo decidiu dedicar-se à evangelização dos pagãos. O apóstolo permaneceu em Corinto cerca de dezoito meses (entre os anos 50 e 52). Quando deixou a cidade, já havia em Corinto uma comunidade cristã numerosa e entusiasta.

Mesmo fisicamente afastado da comunidade, Paulo não perdeu o contacto com os seus queridos filhos de Corinto. Mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), possivelmente quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias alarmantes sobre a comunidade. Após a sua partida de Corinto, tinha aparecido na cidade um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Alexandria, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os judeus. Formaram-se partidos na comunidade (embora, segundo parece, Apolo não favorecesse essa divisão): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo. Os cristãos de Corinto, ainda imbuídos de uma mentalidade pagã, transplantaram para a comunidade o esquema das escolas filosóficas gregas, cada uma com os seus mestres e os seus adeptos. Neste quadro, multiplicavam-se as divisões, os conflitos, as discussões que deixavam feridas abertas na comunidade. Mais grave ainda: o cristianismo corria o risco de deixar de ser o seguimento de Jesus Cristo, para se tornar uma proposta de “saber” cuja validade dependia do poder de sedução dos mestres que “vendiam” aos próprios adeptos as suas ideias.

Neste contexto, Paulo recorda aos coríntios que a “sabedoria humana” não salva nem realiza plenamente o homem. A realização plena do homem está em Jesus Cristo e na “loucura da cruz”. No entanto, como é que a salvação e a realização plena do homem podem manifestar-se nessa estranha história de um Deus condenado à fragilidade, que morre na cruz como um maldito? Para demonstrar que os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos dos homens e que Deus pode agir através da fraqueza humana, Paulo apresenta dois exemplos. No primeiro Paulo refere o caso da própria comunidade de Corinto: os cristãos que compõem a comunidade são gente pobre e débil, muitos deles na situação de escravos; mas, apesar disso, Deus chamou-os a serem testemunhas da sua salvação no mundo. No segundo (é precisamente esse exemplo que a segunda leitura deste domingo nos apresenta), Paulo refere o seu próprio caso.

Evangelho: segundo Mateus (Mt 5: 13-16)

Depois de nos dizer quem é Jesus e de definir a sua missão, Mateus vai nos mostrar como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confia. No centro de tal missão está o anúncio de uma realidade a que Jesus chama o “Reino de Deus”. Esse anúncio é feito com palavras e com gestos.

As palavras de Jesus sobre o Reino de Deus ocupam um espaço bem significativo no Evangelho de Mateus. O evangelista agrupou a maior parte das palavras – ou “ditos” – de Jesus em cinco discursos. É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel recebeu na montanha do Sinai e guardou nos cinco livros da Tora (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio).

O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha”. Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.

Mateus situa este discurso de Jesus no cimo de um monte não identificado. Em qualquer caso, a indicação geográfica não é inocente: lembra-nos a montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus uma nova Lei; e essa Lei irá orientar a vida de todos os que se propõem fazer parte da comunidade do Reino de Deus.

O “sermão da montanha” começa com as “bem-aventuranças” – um elenco dos valores fundamentais que devem ser assumidos para todos os interessados em seguir Jesus e em integrar a comunidade do Reino de Deus. Mas Jesus não fica por aí: completa o discurso do “sermão da montanha” com duas parábolas (ou “ditos”) que indicam a missão daqueles que estão dispostos a viver segundo o espírito das “bem-aventuranças”.